Opinião

Dia da Liberdade de Pensamento: sujeito a Termos e Condições

Vasco Beja, Juventude Popular de Setúbal

Assinalou-se na semana passada, a 14 de julho, o Dia Mundial da Liberdade de Pensamento. Passou-nos um pouco ao lado. É compreensível.

Andamos todos de olho nas notas dos exames nacionais e nas listas de candidaturas ao ensino superior.

Mas devíamos fazer uma pausa, celebrar o pensamento livre em 2026 tem o mesmo valor que um burocrata a pedir que sejamos espontâneos.

A verdade é que de muito pouco nos serve desenhar novas medidas para tentar reter os jovens em Portugal, se ao mesmo tempo continuarmos a exportar o nosso espírito crítico.

Hoje, dar uma opinião frontal exige mais revisões e cautelas do que um livro editado e publicado por uma editora de renome. Basta uma frase fora do baralho, ou um adjetivo adequado a outras situações, para que as brigadas de indignação peçam imediatamente a nossa cabeça em praça pública.

Na era da ofensa gratuita, há sempre alguém, algures, pronto a vestir a carapuça. Chegámos ao ponto surreal em que dizer numa roda de amigos ou numa aula de faculdade que se vota à direita exige quase o mesmo sussurro e discrição de quem está a confessar um crime antipatriota.

Deixámos que nos colocassem uma trela digital e, com tanta inteligência artificial a pensar por nós, a inteligência humana decidiu tirar férias.

O resultado é assustador: em vez de usarmos a escola para ensinar os alunos a questionar o mundo, o verdadeiro propósito da educação, bem para lá da maratona de memorização dos exames, passamos a vida a policiar o vocabulário uns dos outros.

A liberdade de pensamento transformou-se num serviço de subscrição premium, apenas disponível para quem aceita os Termos e Condições do politicamente correto.

E é aqui que o nosso bom senso geracional tem de entrar em ação.

Façamos um exercício simples: imaginem, por um segundo, qualquer um dos grandes vultos da nossa História e Literatura, um Eça de Queirós, por exemplo, no Portugal de hoje. O homem não durava duas horas sem ser «cancelado».

A sua conta nas redes sociais era suspensa antes da hora de almoço e choveriam petições para lhe retirarem os livros das prateleiras e as estátuas das praças.

E porquê? Porque os grandes mestres do pensamento livre não perdiam tempo com avisos de gatilho, nem pediam desculpa por ter massa cinzenta. Usavam as palavras como bisturis para rasgar a hipocrisia, e não como cotonetes para limpar os ouvidos aos moralistas da época.

Não escreviam para o rebanho, escreviam para provocar.

Nós, jovens, temos de aprender com esta herança e perder o medo do tribunal das virgens ofendidas do século XXI. Se queremos um país onde valha a pena ficar, não podemos passar a vida a pedir autorização para pensar fora da caixa, a esconder convicções ou a sussurrar opiniões com medo de quem grita mais alto na internet.

O verdadeiro progresso de uma sociedade só nasce do atrito entre mentes inquietas, e nunca do conformismo de ovelhas bem-comportadas. E a nossa geração, perdoem-nos os mais sensíveis, não tem qualquer vocação para falar baixinho.


Se tiver sugestões ou notícias para partilhar com o Diário do Distrito, pode enviá-las para o endereço de email geral@diariodistrito.pt


Sabia que o Diário do Distrito também já está no Telegram? Subscreva o canal.
Já viu os nossos novos vídeos/reportagens em parceria com a CNN no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Siga-nos na nossa página no Facebook! Veja os diretos que realizamos no seu distrito

fertagus

palmela
palmela