Destruição Silenciosa: Atividades terrestres ameaçam florestas marinhas
Atividades humanas terrestres, como o uso de pesticidas, ameaçam as florestas marinhas em Portugal.

A imagem pode parecer paradoxal, mas a ciência não deixa margem para dúvidas: o maior perigo para as florestas marinhas de Portugal não vem das profundezas — vem de terra firme. A destruição do coberto vegetal e o uso indiscriminado de pesticidas estão a matar, de forma silenciosa, um dos ecossistemas mais ricos e vitais da costa portuguesa.
O alerta foi lançado esta semana por investigadores do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, à margem da 4.ª edição do Festival das Florestas Marinhas, que decorre até dia 22 de maio em Vila Nova de Milfontes, no concelho de Odemira. A mensagem é clara e perturbante.
«As maiores ameaças às florestas marinhas em Portugal são as atividades terrestres, que depois têm impacto no oceano», alertou a bióloga e investigadora Ester Serrão, uma das coordenadoras científicas do festival.
Quando a terra engole o mar
O mecanismo é simples na teoria, devastador, na prática. Quando há destruição da vegetação, provoca-se erosão terrestre e existe uma série de partículas do solo que vão sendo arrastadas pelas chuvas, acabando por ir parar à costa e soterrar as florestas marinhas. As consequências são dramáticas: a erosão costeira vai cobrir as rochas de sedimentos, fazendo com que não haja ‘habitat’, ou seja, um espaço de rocha limpa onde os pequenos estados microscópicos se possam fixar.
Sem essa superfície rochosa disponível, as algas não se reproduzem. Sem algas, não há floresta. Sem floresta, o oceano empobrece a uma velocidade que já preocupa a comunidade científica.
A par da erosão, os pesticidas são o outro grande flagelo. Utilizados em larga escala na agricultura costeira, estas substâncias químicas percorrem um caminho invisível — da terra ao mar — deixando um rasto de destruição nos ecossistemas que encontram pelo caminho.
Muito mais do que algas
É fácil subestimar o que está em jogo. As florestas marinhas são, para o oceano, o equivalente às florestas tropicais em terra. Estes ‘habitats’ são fundamentais pela sua capacidade de mitigar alterações climáticas, mas também enquanto promotores da biodiversidade local, fornecendo abrigo, alimento e áreas de reprodução para inúmeras espécies marinhas.
A investigação científica nacional confirma o alcance desta realidade. Um estudo publicado na revista Scientific Reports revelou que as florestas de algas marinhas desempenham um papel crucial na captura e armazenamento de carbono, oferecendo uma poderosa ferramenta natural para mitigar os efeitos das alterações climáticas.
E o problema agrava-se com o aquecimento dos oceanos. Já foi detetado um processo de tropicalização nas águas portuguesas, que coloca em risco a biodiversidade associada, bem como os serviços ecológicos que estas florestas prestam.
A resposta tem de vir de todos
As soluções existem, mas exigem vontade política e envolvimento comunitário. O Governo deu um sinal em dezembro passado, ao aprovar o programa Floresta Azul, com um investimento de dois milhões de euros para 2026 e 2027, dedicado à proteção das pradarias marinhas. Ainda assim, os investigadores sublinham que o esforço tem de ser muito mais abrangente.
«Queremos que as pessoas saiam do festival a olhar para o oceano de forma diferente, e todos com um sentido de responsabilidade e de contribuir para conservar estes ecossistemas, sendo tão essenciais para sustentar as gerações futuras e a biodiversidade marinha na nossa costa», afirmou Ester Serrão.
O recado é direto: agricultores, autarcas, cidadãos e decisores políticos partilham a responsabilidade sobre o que acontece debaixo de água. Cada campo sem proteção vegetal, cada litro de pesticida que chega às linhas de água, tem uma consequência no fundo do mar — ainda que essa consequência nunca apareça nos noticiários.
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