Depois das amêndoas, sirvam-se umas leituras

Mexer nos programas escolares tornou-se, nos últimos tempos, num desporto apetecível.
Devem achar que se trata de Padel.
E, talvez, ainda bem que assim o é: sinal de que o que os jovens leem ainda nos importa.
A mais recente polémica, que muitos confundiram com o Plano Nacional de Leitura, ataca diretamente o coração da disciplina de Português do 12.º ano: as Aprendizagens Essenciais.
O Ministério da Educação colocou em consulta pública uma proposta que retira a obrigatoriedade exclusiva a José Saramago (com obras como O Ano da Morte de Ricardo Reis).
A ideia? Passar a ser uma escolha entre o nosso único Nobel ou Mário de Carvalho, com a obra Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. O argumento oficial é debater temas como o extremismo e a decadência das sociedades. A Fundação Saramago já veio a campo exigir o videoárbitro: que se troque o excludente “ou” por um inclusivo “e”.
Um drama, o que seria.
Pôr uma geração que vive a pão e scroll infinito no TikTok a folhear livros é uma missão hercúlea, quase impossível, e tentar diversificar temas é merecedor de aplausos. Mas há um limite perigoso.
O que estas polémicas mostram é que muitas vezes se continua a tratar o currículo como um jogo de cadeiras: para um grande autor se sentar, outro tem de se levantar.
A pretexto de inovar, corre-se o risco de transformar o programa escolar numa autêntica clínica de esterilização intelectual. A receita tem sido quase sempre a mesma: confrontados com a quebra nos hábitos de leitura e a densidade dos programas, a tentação é retirar o que dá trabalho e oferecer opções de cantos redondos. Livros “mastigados”, geridos a régua e esquadro em folhas de Excel ministeriais para caberem no tempo de aulas, sem ofender sensibilidades.
Nós, jovens, devíamos recusar esta visão paternalista. Retirar a complexidade à Educação e obrigar os professores a escolher entre génios não é proteger os jovens, é atirar a toalha ao chão.
A escola não foi feita para ser uma bolha de conforto permanente, foi feita para desafiar. E se os arquitetos destas revisões querem realmente combater a apatia e estimular o tão falado “espírito crítico”, não precisam de encomendar listas onde os nossos clássicos andam à batatada por um lugar. Já que se mexe, o inteligente seria mexer na estrutura e trazer literatura que faça, de facto, sentido para todos.
Podemos ir buscar, e temos, uma adição de valor às Aprendizagens Essenciais oriunda do nosso próprio concelho. Num programa que se quer audaz e focado em combater populismos e extremismos, a verdadeira polémica deveria ser esta: onde está o lugar de destaque nacional, de leitura obrigatória, para Manuel Maria Barbosa du Bocage?
Bocage não é apenas o filho preferido de Setúbal, um nome de praça ou uma figura pitoresca para o turista ver. Ele é uma adição obrigatória, um autor literário perfeito contra o pensamento único e esta nova cultura do cancelamento que tenta ditar as regras do que é aceitável.
Num tempo em que se procura colocar rótulos de perigo e “filtros” em tudo o que se lê, o nosso poeta lembra-nos o valor supremo da liberdade, do sarcasmo e da coragem de dizer o que se pensa, doa a quem doer.
Ele é a prova viva de que se pode ser um clássico formidável e, em simultâneo, o maior rebelde da sua época. Bocage não escrevia para agradar a comissões pedagógicas, escrevia para inquietar.
A sua genialidade indomável daria dez a zero a muita da fast-food literária que às vezes tentam impor nas escolas do país. Se o justíssimo apelo do atual Governo para o país é “deixem-no trabalhar!”, então apliquemos a máxima também às nossas salas de aula: tragam o nosso poeta para os currículos obrigatórios e deixem a escrita de Bocage participar!
Cabe-nos a nós, setubalenses, não deixar que o nosso maior vulto fique refém das estátuas. Exigir que Bocage assuma a dianteira no combate pelo interesse literário dos jovens não é um capricho da vizinhança, é um serviço público de resgate cultural. E por isso, a Juventude Popular de Setúbal avançou com a proposta de finalmente se colocar Bocage no patamar que merece, mais próximo das mentes das novas gerações.
Inovar a sério na Educação não é apagar uns para pôr outros porque a métrica dá dores de cabeça.
É ter a frontalidade de atirar aos jovens os génios mais livres da nossa História. Um país que tem medo de colocar os seus clássicos mais irreverentes como leitura obrigatória arrisca-se a ser um país muito bem-comportado, mas extremamente medíocre.
E Setúbal, tal como Bocage, não tem vocação para a mediocridade. É uma cidade, capital de um distrito, em constante evolução.
Vasco Beja, Juventude Popular de Setúbal
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