De Sines para a Europa: Andreia Conceição quer agora o mundo
A campeã europeia da ISKA fala ao Diário do Distrito sobre a sua conquista, o papel da equipa, a ligação a Sines e a ambição de disputar o título mundial.
Andreia Conceição em entrevista exclusiva ao Diário do Distrito
Quase dois meses depois de conquistar o título europeu feminino da ISKA, em K-1 e na categoria -53,5 kg, Andreia Conceição continua focada nos próximos objetivos. A atleta de Sines venceu a francesa Noemi Melgar no Madeira Fight Night 4, realizado a 20 de junho, na Ribeira Brava, e aponta agora à disputa pelo título mundial.
Em entrevista exclusiva ao Diário do Distrito, Andreia recorda a preparação para o combate, destaca a importância do treinador Marco “Tyson” Campos e da equipa da Top Team LA, fala da responsabilidade de representar Sines e defende maior apoio financeiro aos atletas. A campeã europeia revela igualmente como encara o futuro e como gostaria de ser recordada.
“É só 10% do que desejo”
Diário do Distrito (DD): Já passaram quase dois meses desde a tua conquista do título europeu feminino da ISKA. Achas que tiveste tempo suficiente para assimilar aquilo que alcançaste?
Andreia Conceição (AC): Sim. Ao início, foi algo que me deixou muito radiante e motivada e, agora, já consegui perceber que é só 10% do que desejo conquistar.
A dimensão da conquista não retirou, no entanto, a concentração da atleta nos objetivos seguintes. Para Andreia Conceição, o título europeu representa uma etapa importante, mas está longe de corresponder ao limite das suas ambições.
DD: Houve algum momento do combate em que sentiste que o título podia mesmo ficar contigo? Se sim, o que é que passou pela tua cabeça nessa altura?
AC: No desenrolar do segundo para o terceiro assalto, senti que estive sempre por cima e que, se mantivéssemos o mesmo plano, a vitória viria. Mas, num desporto de luta, tudo pode acontecer, até mesmo quando aparentemente está tudo controlado. Por esse motivo, o alerta e o foco têm de estar presentes até ao fim.

Uma preparação que passou também pela mente
A preparação para um combate por um título europeu não se fez apenas através do trabalho físico. A componente mental assumiu um peso particular no caminho até à competição, sobretudo perante a possibilidade de concretizar um dos objetivos definidos para este ano.
DD: Esta conquista é, sem dúvida, o resultado de muito tempo de trabalho. O que exigiu mais de ti durante a preparação: a componente física, a componente mental ou ambas de igual forma?
AC: De forma geral, todas as componentes são importantíssimas, mas confesso que a parte mental nesta luta foi muito trabalhada, pois estava a um passo de conquistar um dos objetivos para este ano.
Por detrás da atleta que entrou no ringue esteve também uma equipa responsável por acompanhar todo esse processo. Andreia destaca a importância de quem esteve presente antes, durante e depois do combate.
DD: O teu treinador, Marco “Tyson” Campos, e toda a equipa da Top Team LA têm acompanhado a tua evolução ao longo dos anos. Que papel tiveram nesta conquista europeia?
AC: O papel mais importante: a presença, a ajuda e a união de todos. Eles são o pilar de todas as conquistas.

Sines no centro de uma conquista internacional
A conquista europeia teve igualmente um significado particular por representar Sines num palco internacional. Para Andreia, essa ligação à cidade é motivo de orgulho, mas traz consigo uma responsabilidade acrescida.
DD: Representas Sines em todas as competições. Que significado tem para ti levar o nome da cidade e da região aos palcos internacionais?
AC: Sinto que é algo importante, mas que, ao mesmo tempo, também traz muita responsabilidade. Acho que tenho conseguido elevar Sines e mostrar que temos atletas muito competentes na cidade.
A atleta vê, assim, os seus resultados como uma forma de dar visibilidade ao talento desportivo existente em Sines. Mas, quando fala do crescimento da modalidade, Andreia aponta ainda para uma dificuldade concreta que continua a condicionar muitos atletas.
DD: O kickboxing feminino tem vindo a crescer em Portugal. Na tua opinião, o que ainda falta para que as atletas tenham o reconhecimento e o apoio que merecem?
AC: Acho que, cada vez mais, o kickboxing no geral tem evoluído muito, principalmente no sexo feminino, e todos estamos a marcar a diferença. Na minha opinião, o que está em falta é mesmo o apoio monetário para que os atletas consigam chegar mais longe.
A evolução da modalidade, na perspetiva da campeã europeia, não passa apenas por conquistar maior visibilidade. Passa igualmente por criar condições que permitam aos atletas continuar a competir e a ambicionar resultados de nível internacional.

Depois da Europa, segue-se o desafio mundial
A pergunta sobre o futuro encontra uma resposta curta, mas inequívoca. O título europeu já faz parte do percurso e o próximo objetivo passa por chegar a uma disputa pelo título mundial.
DD: Depois de conquistares um título europeu, qual é o próximo grande objetivo da tua carreira? O título mundial está nos teus planos?
AC: Após o europeu, será realmente conseguirmos disputar o título mundial.
A ambição competitiva não fica, contudo, confinada ao ringue. Andreia descreve-se como uma atleta que mantém a mesma postura dentro e fora da competição, levando o foco e a disciplina para a sua rotina diária.
DD: Fora do ringue, quem é a Andreia Conceição? Como consegues desligar da competição e dos treinos intensos?
AC: A Andreia Conceição fora do ringue é a mesma que lá dentro. Focada, calma e atleta a 100%, seja no ringue, em casa ou na rotina diária.

“Dava-lhe os parabéns por nunca ter desistido”
A carreira que hoje lhe permite celebrar um título europeu começou muito antes deste resultado. Olhando para trás, Andreia identifica a capacidade de persistir como uma das características que mais valoriza no seu próprio percurso.
DD: Se pudesses voltar atrás e falar com a Andreia que entrou pela primeira vez num ginásio para treinar kickboxing, o que lhe dirias hoje?
AC: Dava-lhe os parabéns por nunca ter desistido. Por se ter tornado capaz e uma mulher destemida com a vida e no ringue.
É também essa ideia de persistência que Andreia deixa aos mais jovens que pretendem seguir uma carreira no desporto, lembrando que a ambição, por si só, não chega.
DD: Que mensagem gostarias de deixar aos jovens que sonham seguir uma carreira no kickboxing ou noutra modalidade desportiva?
AC: Que nunca desistam, mas que se preparem, pois acho que, nas artes marciais e no desporto de alta competição, se distingue quem realmente está disposto a lutar pelos seus objetivos.

Uma conquista partilhada com quem esteve sempre presente
Embora seja Andreia quem sobe ao ringue e recebe o título, a atleta faz questão de repartir o mérito por quem a acompanha. Dessa forma, o treinador, o namorado e as pessoas que a apoiam surgem entre aqueles a quem atribui importância nesta caminhada.
DD: Há alguma pessoa a quem sintas que deves uma parte importante da conquista europeia?
AC: Sim, ao meu treinador, ao meu namorado e a todas as pessoas que me apoiam.
Mas a forma como Andreia quer ser recordada vai muito além dos títulos conquistados. Na resposta que encerra a entrevista, a atleta coloca o amor pela modalidade, a dedicação e a relação com os outros no centro do legado que gostaria de deixar.
DD: Daqui a muitos anos, quando olhares para a tua carreira, como gostavas que a Andreia Conceição fosse recordada?
AC: Gostava que fosse relembrada como alguém que sempre amou o kickboxing e tudo o que ele me proporcionou. Que foi alguém que sempre se dedicou e tentou ajudar os outros. Que teve empatia e amor pelo que fez em todos os momentos na luta.
Aos 25 anos, Andreia Conceição já acrescentou um título europeu ao seu percurso. Agora, quase dois meses depois, a campeã de Sines não esconde que esse resultado é apenas o início de uma ambição maior. A Europa já faz parte do currículo, portanto, o próximo grande objetivo é mesmo conquistar o mundo.
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