David e Golias: GD Fabril enfrenta colosso do imobiliário de luxo no Barreiro

No Barreiro, o Grupo Desportivo Fabril é símbolo do associativismo português e do passado operário local. Nascido em 1928 na Companhia União Fabril (CUF). No portão do Pavilhão Vítor Domingos, há um cartaz onde se lê: “És tu que dás vida ao nosso pavilhão.” A frase, um apelo à comunidade, contrasta com as portas fechadas por iniciativa privada.
Desde abril, o acesso ao pavilhão tem sido condicionado, e a 16 de outubro as portas fecharam-se definitivamente, sem aviso e sem previsão de reabertura. O edifício, onde treinavam as modalidades de hóquei em patins e patinagem artística do Grupo Desportivo Fabril, foi vendido à sociedade Courtesy Wish, Lda.

O caso rebentou publicamente na reunião municipal de fevereiro de 2025 onde o presidente da autarquia, Frederico Rosa (PS) – segundo a Lusa – garantiu que “ninguém vai ficar sem praticar desporto, não há licenciamento, não se pode construir prédios ali, quem vendeu foi o Fabril e a câmara não foi tida nem achada”. No entanto, dirigentes relatam que “chegámos um dia e estava tudo fechado. Depois voltou a abrir e passado uma semana voltou a fechar”.
Jorge Santana, dirigente do GD Fabril, descreve a sucessão de episódios sem qualquer aviso: “Nunca houve nenhuma notificação formal. Sempre nos disseram para prepararmos a época seguinte, do hóquei e da patinagem. E um dia chegámos e o pavilhão estava fechado com cadeado”. O pavilhão, que chegou a albergar cerca de 300 atletas entre hóquei e patinagem, acabou por ver o hóquei desaparecer por completo.
“Costumava dizer-se que uma pessoa podia nascer na CUF e morrer na CUF”, recorda Rinito, evocando um tempo em que “havia escolas, colónias de férias, padaria, grupos desportivos e culturais — tudo dentro do complexo”, estratégias usadas durante o Estado Novo para os empregadores garantirem que os trabalhadores não faltavam ao trabalho por não terem onde deixar os filhos.

Atualmente o “hóquei está com zero atletas. As pessoas já estavam inscritas, já tinham pago as inscrições, e ficámos sem nada”, diz Jorge Santana. A patinagem mantém-se com grande dificuldade, num pavilhão improvisado num colégio do concelho, três vezes por semana que, de acordo com Rinito, “não tem condições competitivas, e a patinagem está a crescer no país inteiro. Temos campeões do mundo, júniores e séniores”.
Apesar do fim da CUF em 1975, o Fabril manteve a atividade e nunca deixou de ser um clube “eclético e formador”, com uma história de excelência em modalidades como futebol, futsal, hóquei em patins, atletismo, ginástica, judo, patinagem artística e ténis. Foi a casa de lendas do hóquei como Leonel Fernandes, campeão nacional em 1965, Zé António, o “Flecha”, o guarda-redes Vítor Domingos, Salustiano Coelho, Filipe Alves, Rui Batista, Hernâni Nunes e José Afonso Almeida “Puskas”.
O processo de venda dos terrenos, que historicamente pertencem à CUF e depois ao Grupo Mello, entrou numa zona cinzenta que explica grande parte do conflito atual. O Fabril detinha o direito de superfície de 50 anos sobre a área desportiva. Em 2019 foi estabelecido um protocolo entre o clube e os anteriores proprietários, permitindo a venda dos terrenos ao atual consórcio, com duas condições essenciais: “O clube abdicou do direito de utilização para que os terrenos fossem vendidos, e em contrapartida seria entregue o Estádio ao Clube e fariam um pavilhão novo. Aquele pavilhão não poderia ir abaixo enquanto não estivesse construído o novo. Está escrito”, afirma Jorge Santana.

A empresa que adquiriu os terrenos entregou o Estádio, mas “não reconhece a outra parte do entendimento: não derrubar aquele pavilhão e deixar que as modalidades praticassem lá até ser construído um novo”. O caso avançou para tribunal.
O consórcio proprietário, representado por José Pedro Rodrigues, apresentou um comunicado oficial onde acusa direções anteriores do Fabril de incumprimento contratual e gestão irregular. Insiste ainda que “é pretensão da entidade proprietária permitir a continuidade da prática desportiva em moldes e condições a acordar”, mas que o Fabril terá “protelado por quase 3 anos a entrega efetiva dos terrenos”.
Jorge Barth, pai de um atleta, critica a resposta institucional: “Não houve mediação. As partes estão de costas voltadas e a Câmara Municipal nunca trabalhou uma visão para o desporto. O concelho sempre acreditou que os privados garantem as infraestruturas, e nunca houve uma resposta municipal que fosse alternativa”. A câmara estava habituada a que fossem os privados a dar as infraestruturas ao seu clube”, mas essa é uma oferta que “pode desaparecer a qualquer momento”.
O hóquei em patins exige um espaço de treino com condições específicas, como tabelas e um chão preparado para o uso de patins, o que dificulta a procura de um local adequado para os treinos da modalidade. Segundo Jorge Santana, “temos procurado soluções e falado com outros clubes, mas até agora não conseguimos encontrar. A melhor solução seria construir um pavilhão novo”.
Nas palavras de Jorge Barth, o Barreiro “não teve visão de futuro”. E compara com concelhos vizinhos: “A Câmara do Seixal tem como objetivo dar a cada associação um espaço para treinar com qualidade. Aqui não houve uma única resposta municipal no sentido de projetar uma alternativa”.
Esta batalha desigual levanta questões sobre o papel da Câmara Municipal do Barreiro neste processo. A legislação urbanística disponível, nomeadamente o PDM de 1993, classifica a área como equipamento desportivo. Se a autarquia quisesse travar qualquer transformação urbanística, teria instrumentos para isso. Jorge Barth refere que “não houve vontade política”. O plano do proprietário para os terrenos que está a circular – sem confirmação pública da autarquia – aponta para um projeto que inclui “um hotel e vários campos de futebol”, além de áreas urbanizáveis.

O consórcio proprietário insiste querer continuar a atividade desportiva, mas os factos são inegáveis: um pavilhão fechado sem nenhum aviso prévio, um acordo verbal por cumprir, atletas impedidos de treinar e modalidades paradas. A Câmara Municipal do Barreiro, manteve, até agora, uma posição ambígua. Dirigentes e pais apontam para duas soluções possíveis: a expropriação em nome do interesse público, mecanismo que o próprio município já utilizou noutras situações ou a reclassificação urbanística, travando a construção e obrigando ao cumprimento integral do protocolo de 2019.
Enquanto isso 300 crianças e jovens ficaram sem casa desportiva. O hóquei – modalidade fundadora do clube – está parado pela primeira vez desde 1930. E o pavilhão histórico permanece fechado a cadeado, simbólico de um concelho que para além de perder a sua capacidade produtiva, perdeu também o controlo das suas próprias infraestruturas.
“O movimento associativo é agregação. As pessoas juntam-se por interesses que são comuns, mas depois crescem e fazem todo o desenvolvimento cultural, social e desportivo. Leva a sociedade a pensar em si, nas suas necessidades e ambições. O esvaziamento do movimento associativo pode corresponder a um retrocesso de um meio de civilização”, afirma Jorge Barth.
O futuro do complexo, do clube e das modalidades depende agora de uma decisão política e de uma decisão judicial. A questão que se coloca é se a Câmara do Barreiro quer continuar a ter desporto de formação como parte da identidade cultural, ou se permite que mais um pedaço da história seja subtraído por projetos imobiliários de luxo e de acesso restrito à população.
Diogo Alexandre e Nádia Pedro
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