D. Américo Aguiar alerta para desafios da inteligência artificial na evangelização
Bispo de Setúbal foi convidado da Diocese de Getafe, na comunidade de Madrid, em Espanha, onde falou sobre a «aldeia algorítmica» e defendeu que a tecnologia deve servir para libertar tempo para o encontro entre pessoas
O cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, participou na abertura do Ano Pastoral 2026-2027 da Diocese de Getafe, na Comunidade de Madrid, em Espanha, onde apresentou uma conferência dedicada aos desafios da evangelização num mundo marcado pelos algoritmos e pela inteligência artificial.
Sob o tema «Evangelizar na aldeia algorítmica à luz da JMJ Lisboa 2023», D. Américo Aguiar partiu da experiência da Jornada Mundial da Juventude para refletir sobre a forma como as novas tecnologias estão a transformar a comunicação e as relações humanas. Além disso, presidiu à eucaristia que integrou o encontro diocesano «Enviados».
Na conferência, o bispo de Setúbal sustentou que, apesar do desenvolvimento tecnológico, o centro da missão da Igreja continua a estar no encontro humano.
«Quanto mais tecnológica se torna a nossa sociedade, mais precisa daquilo que nenhuma tecnologia pode produzir por si só: presença, sentido, relação, esperança, perdão, comunhão e encontro com Cristo», afirmou.
«A questão é também o que a tecnologia está a fazer connosco»
D. Américo Aguiar recordou que a sociedade já não vive apenas ligada através da internet. Atualmente, explicou, os sistemas automáticos selecionam conteúdos, fazem recomendações e aprendem com o comportamento dos utilizadores.
Por isso, considerou que a reflexão sobre a tecnologia não pode limitar-se à forma como cada pessoa utiliza estas ferramentas.
«A questão não é apenas o que fazemos com a tecnologia. A questão é também o que a tecnologia está a fazer connosco», afirmou, questionando os hábitos, ritmos e desejos criados por este novo ambiente digital.
O cardeal defendeu, contudo, que a Igreja não deve «demonizar a técnica». Pelo contrário, reconheceu que a tecnologia e a inteligência artificial podem ajudar em várias tarefas e contribuir para o bem comum.
Ainda assim, alertou para a necessidade de distinguir entre aquilo que uma máquina consegue produzir e aquilo que pertence à experiência humana.
«A inteligência artificial pode imitar expressões da inteligência. Não vive uma biografia. Pode produzir uma frase sobre a dor. Não lhe dói nada. Pode gerar uma declaração de amor. Não ama», declarou.
IA pode ajudar, mas «não pode substituir»
D. Américo Aguiar apontou também várias utilizações possíveis da inteligência artificial no trabalho pastoral. Entre elas estão a organização de informação, a tradução, a preparação de primeiros rascunhos e a criação de materiais de formação.
No entanto, deixou um critério para o aproveitamento do tempo ganho através destas ferramentas.
«A inteligência artificial pode ajudar a organizar informação, preparar um primeiro rascunho, traduzir uma comunicação, resumir um documento, organizar materiais de formação ou tornar um conteúdo mais acessível. Pode poupar-nos tempo. Mas esse tempo poupado só será pastoralmente fecundo se o devolvermos às pessoas», defendeu.
Na mesma intervenção, resumiu a relação que considera adequada entre a Igreja e estas ferramentas: «A ferramenta pode assistir. Não pode substituir».
Entre as recomendações apresentadas, o bispo de Setúbal defendeu ainda a proteção de dados pessoais, a verificação das informações produzidas por sistemas generativos e a transparência na utilização destas tecnologias.
Além disso, pediu que não se entregue à inteligência artificial aquilo que faz parte do processo de formação individual, como ler, pensar, escrever, rezar ou refletir sobre uma ideia.
JMJ Lisboa 2023 como exemplo do encontro humano
Ao longo da conferência, D. Américo Aguiar evocou várias vezes a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, realizada em 2023, destacando não apenas a dimensão tecnológica e logística do evento, mas sobretudo as relações criadas durante aqueles dias.
O cardeal agradeceu ainda à Igreja espanhola a participação na JMJ e classificou como «extraordinário» o apoio das dioceses, paróquias, movimentos, comunidades e milhares de jovens espanhóis.
Segundo o bispo de Setúbal, a experiência de Lisboa mostrou que nenhuma tecnologia consegue substituir «um rosto que acolhe, umas mãos que servem e um coração disponível».
Já na homilia da abertura do Ano Pastoral de Getafe, D. Américo Aguiar voltou a recordar a JMJ para sublinhar que a missão da Igreja não deve ser avaliada apenas através de números, participantes, visualizações ou seguidores.
Dirigindo-se aos participantes, defendeu que sacerdotes, consagrados, leigos, famílias, catequistas, educadores e jovens têm diferentes funções, mas partilham uma mesma missão.
«Ninguém pode fazer tudo, mas ninguém está dispensado da missão», afirmou.
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