Cuidadores revoltados com CROA de Palmela: ‘Não queremos levar animais para a morte’

O abandono de animais é uma dura realidade, combatida na maior parte das vezes por cuidadores particulares, que dividem os seus rendimentos para garantir o bem-estar dos animais de ninguém, quer seja com a alimentação, como com os tratamentos médicos e as esterilizações.
Por sua vez, as autarquias desempenham um papel central na gestão e na implementação de políticas que visam reduzir o número de animais errantes, desenvolvendo estratégias eficazes de controlo populacional, como programas de esterilização, campanhas de microchipagem e ações de adoção responsável.
Este papel passa ainda pelo investimento em Centros de Recolha Oficiais que ofereçam condições adequadas de alojamento, cuidados veterinários e processos de adoção, complementados muitas vezes com parcerias com associações de proteção animal e cuidadores privados, bem como com hospitais e clínicas veterinárias, para ampliar a capacidade de resposta, garantindo o controlo de colónias, e que mais animais recebem assistência.
No entanto, nem sempre esta convivência é pacífica, e o caso que o Diário do Distrito agora apresenta, envolve já queixas-crimes e uma petição online, que denunciam práticas realizadas no CROA de Palmela por funcionários e pelo veterinário municipal.

Cortes de esterilização colados com supercola3
A vida de qualquer cuidadora é feita de histórias dos animais que salvam, mas não são felizes as que nos contam sobre o que ocorre no CROA de Palmela.
“Sou cuidadora em Palmela, e tenho queixas do CROA, do veterinário Joaquim Manuel Neves Martins e de alguns dos funcionários. Sei que durante um ano ele fez esterilizações sozinho, e a sala de cirurgia não era limpa em condições, os instrumentos não eram devidamente esterilizados, e até as orelhas dos animais, que são cortadas após o procedimento, chegavam a gangrenar.
Numa das gatas de rua que adoptei, foi ele que realizou a esterilização, mas não a suturou internamente, e no corte da esterilização, aplicou supercola3, em vez de cola cirúrgica. Aliás, os serviços do CROA admitiram essa prática, porque alegam que a supercola3 tem o mesmo princípio activo que a cola cirúrgica (cianoacrilato).
Escusado será dizer que o corte cirúrgico da esterilização abriu, ficou com as gorduras penduradas de fora. Foi horrível, tive de aplicar um curativo até conseguir levá-la a uma médica veterinária de urgência.”
Neste relato feito ao Diário do Distrito, a cuidadora explica que “a gata teve a sorte de eu estar em casa e ser logo socorrida, mas as outras que foram para a colonia e eram silvestres, que não conseguimos capturar, acabaram por morrer depois da ‘esterilização’ feita pelo veterinário no CROA, porque nem sempre fez as suturas necessárias no corte de esterilização e utiliza apenas a supercola3, sobretudo em animais assilvestrados e de colónias menos ‘visíveis’, de onde chegam a desaparecer todas as gatas. E também já tivemos um caso de um gato que acabou por morrer porque o veterinário o esterilizou como se fosse fêmea.”
Outra cuidadora relata que “o serviço do CROA de Palmela tem dois veterinários, mas têm feito de tudo para ser o Joaquim Neves a ficar ali, em detrimento da outra veterinária. Está bem protegido. Já nos disseram que foi levantado um inquérito disciplinar contra este veterinário, mas não sabemos de mais nada.”
Esta cuidadora tem também uma história sobre um gato capturado pelo CROA. “O único gato que me esterilizaram, apanharam-no sem me avisar. O animal esteve, à vontade quatro ou cinco meses desaparecido da colónia. Imagino onde é que o terão deixado, até ele encontrar outra vez o seu cantinho.”
O caso do gato ‘Manuel’ é outro apontado pelas cuidadoras. Trata-se de um animal que apareceu com uma ferida no pescoço, “e que um munícipe alertou o CROA via email. Levaram muito tempo até o recolher, foi esterilizado, mas esteve lá um ou dois dias, com o diagnóstico por parte desse ‘veterinário’ de que tinha sido uma briga de gatos.
Ao fim de três meses, consegui capturá-lo porque a ferida estava cada vez pior, e tratei-o à minha custa, sendo que afinal o gato tem uma doença autoimune que lhe causa feridas pelo corpo.”

A revolta sente-se em cada palavra destas cuidadoras: “sabemos que os animais têm de partir, mas é uma dor enorme saber que estes inocentes podiam ser salvos, mas morrem por falta de cuidados veterinários.
Temos de entregar no CROA os animais que tratamos para esterilização, porque não há possibilidade de pagarmos esses procedimentos no privado, outros são sinalizados pelos munícipes, que os encontram doentes.
Mas temos medo de ali deixar os animais que cuidamos, alguns bebés, porque não queremos levar animais para a morte. Sabemos que o veterinário não lhes dá o tratamento que necessitam quando são das cuidadoras que o processaram, ou não as informa da morte dos animais, mesmo quando já estes têm adoptantes.”
E há ainda os casos, “de animais que são capturados para esterilizar, mas são devolvidos às colónias alguns ainda sob o efeito da anestesia, sem que façam o devido recobro, embora a veterinária entregue sempre os animais já acordados.
Por ainda virem sob efeito da anestesia de esterilização, já tivemos animais que morreram atropelados nas colónias da SulPonte, em Pinhal Novo, e na Quinta da Marquesa 3, sempre de intervenções do veterinário Joaquim Neves.
Os acessos, que obrigam a subir uma ladeira com as transportadoras porque os veículos automóveis têm de ficar no exterior dos Serviços Operacionais, a falta de espaço e de uma sala de cirurgia obriga também a que os animais capturados para esterilizar tenham de ficar dias e dias, sem comer nem beber, em transportadoras de contenção, (feitas apenas em grades, sem resguardos, e que servem só para estes estarem quietos enquanto recebem a anestesia), por falta de protocolos com clínicas e hospitais veterinários, que ou é ineficaz ou inexistentes.”
Estas e outras situações têm sido reportadas, quer através da intervenção e entrega de uma exposição na Assembleia Municipal Extraordinária de 29 de abril de 2025, quer com reuniões com os serviços e vereação.
“Não podem dizer que desconhecem o que se passa. Desde 2020 temos tido reuniões com a vereadora Fernanda Pésinho, a responsável pelo CROA, com a entrega de relatórios e propostas para melhorar as condições de vida dos animais de rua, e no dia 7 de janeiro de 2025, um grupo de cuidadoras teve uma reunião informal com a Chefe de Serviço do CROA, a secretária, e os dois veterinários e, entre outras más práticas do veterinário municipal e de alguns funcionários, foi dado conhecimento de que o veterinário usava supercola3 nos cortes das esterilizações, e por este não suturar as gatas internamente, o que leva a que morram necrosadas.”
As cuidadoras referem ainda a falta de condições do espaço. “Ali há falta de tudo. A máquina de lavar roupa esteve dois meses avariada, o que levou a uma falta de mantas para aquecer os animais, não há suportes para aplicar soro, são colocados em pregos nas paredes. É uma miséria. Apesar de terem adquirido equipamentos cirúrgicos, estes são ineficazes porque não há uma sala de cirurgia por falta de espaço do CROA.
E há também muito bullying contra alguns funcionários, enquanto outros não respeitam nem as cuidadoras nem os animais. Soubemos de vários que saíram de lá, alguns por baixa psicológica e outros pediram mobilidade interna ou até reforma antecipada, por não aguentarem aquilo que viam passar-se ali com os animais.
As coisas melhoraram muito no internamento e nas adopções desde que entrou uma ajudante de veterinária, mas que está apenas como assistente operacional, e que tem vindo a auxiliar os veterinário nos actos médicos, na limpeza, e no tratamento dos animais.
Estas cuidadoras que acederam falar com o Diário do Distrito preferem não divulgar a identidade, mas apresentaram-nos informações concretas, fotos de animais e do estado em que estes foram devolvidos às colónias, ou cujas situações de saúde necessitavam de cuidados urgentes, que lhes foram recusados. Fotos que pela sua natureza, não podemos divulgar.
O Diário do Distrito contactou dois médicos veterinários, para questionar se a supercola3 pode ser utilizada, em substituição da cola cirúrgica, por conter o mesmo princípio activo (cianoacrilato) como foi alegado pelo CROA em resposta às queixas das cuidadoras, e a resposta de ambos foi negativa, mostrando mesmo indignação ao terem conhecimento desse tipo de prática.
Todas estas situações, “mas acima de tudo pelo uso de supercola3 nas esterilizações” levaram a que algumas cuidadoras apresentassem em fevereiro de 2025 uma queixa-crime contra o veterinário Joaquim Neves Martins, no Posto Territorial de Palmela da GNR, queixa que foi enviada para o DIAP de Setúbal, e da qual aguardam desenvolvimentos.

Petição ‘Pelo fim das más práticas do CROA Palmela e a relocalização do mesmo’
Em novembro de 2025 foi criada a petição online ‘Pelo fim das más práticas do CROA Palmela e a relocalização do mesmo’, dirigida à Presidente da Câmara Municipal de Palmela, que já obteve 641 assinaturas.
A petição foi elaborada por um «grupo de cuidadores de animais errantes do concelho de Palmela» e denuncia «más práticas realizadas pelo CROA Palmela que têm colocado em risco o bem-estar animal, e para exigir a relocalização das suas instalações em local seguro e digno».
A lista dos problemas é semelhante à que as cuidadoras apontaram ao Diário do Distrito, da falta de condições do CROA «para a permanência de animais e pessoas e muito menos para a realização de cirurgias ou internamentos, bem como de acessos», acusando o facto de este funcionar «em contentores, e no cimo de uma encosta onde estacionam veículos pesados de limpeza pública e urbana que libertam fumos nocivos e transportam materiais para aterros sanitários com odores tóxicos e nauseabundos».
A «falta de uma sala de cirurgias bem equipada», «falta de espaço para recobros, de equipamento de anestesia, de pessoal qualificado para realizar as operações em segurança» são também apontados.
Outras acusações passam pelas «represálias exercidas sobre os animais capturados que não são sequer tratados por existirem diferendos entre o veterinário em questão e os cuidadores», bem como do «uso de supercola3 (ao invés de cola cirúrgica) no corte de esterilização de várias gatas de colónias, e cirurgias em animais debilitados que acabam por se confirmar em óbitos».
A inexistência de protocolos com hospitais e clínicas veterinárias, falta de comunicação entre os funcionários do CROA e as cuidadoras, bullying contra funcionários e falta de formação, e até alcoolismo, além de maus-tratos e falta de assistência, são outras das acusações das signatárias da petição.
«Os animais errantes de Palmela sofrem na rua e sofrem no CROA, a entidade que os devia proteger, por isso exigimos uma reestruturação do CROA com substituição do segundo veterinário, caso recuse abandonar as más práticas que usa, uma equipa bem formada e um espaço digno e com condições aos quais os cuidadores possam ter acesso quando necessário.»
Perante estas acusações, o Diário do Distrito contactou o gabinete de comunicação da Câmara Municipal de Palmela que prestou os esclarecimentos às questões colocadas, e que, pela extensão destas, optámos por divulgar num artigo separado, e que pode ler aqui.
Se tiver sugestões ou notícias para partilhar com o Diário do Distrito, pode enviá-las para o endereço de email geral@diariodistrito.pt
Sabia que o Diário do Distrito também já está no Telegram? Subscreva o canal.
Já viu os nossos novos vídeos/reportagens em parceria com a CNN no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Siga-nos na nossa página no Facebook! Veja os diretos que realizamos no seu distrito







Eu cuidava de uma gata na rua que teve crias e foi levada para lá. Eles a esterilizaram e jogaram na rua no dia seguinte, sem recobro e cheia de leite. Nunca mais a encontramos.
Ela ficava numa casinha de madeira, no sol, um forno. Tenho horror desse sítio
Se há provas já denunciaram? Isto não pode ser ignorado!
Levem o caso ao ministério público, denunciem a ordem dos veterinários , chamem a televisão. Pobres animais. 😡🥲
Inacreditável….
Chris Reis
Mas se isso for verdade devia de perder a licença de exercer a profissão
Rosa Capela estamos em portugal a república das bananas
Sim, eu também tenho conhecimento dessa e muitas outras situações de más práticas e desinteresse por parte do CRO de Palmela, sobretudo por parte do próprio veterinário. Devo dizer que não vi pessoalmente, mas sei por pessoa da minha mais inteira confiança, de que realmente e infelizmente é verdade, sim. Aliás, mais que uma pessoa me contou uma série de coisas muito mas muito más mesmo… Daí que, apesar de eu própria não ter visto, tenho a certeza que essa e outras informações que me foram partilhadas por várias pessoas, são de facto verdade. Espero é que, para além dessas pessoas (cuidadoras e familiares), hajam funcionários dos próprios serviços que tenham a coragem de testemunhar essas más práticas do veterinário municipal e a conivência das suas chefias. As câmaras municipais e seus funcionários públicos têm que começar a ser responsabilizados pelo que fazem
O quê???
Está tudo maluco,nem os veterinários escapam 😡é vergonhoso o que estas pessoas fazem🙄
A ordem dos veterinários e ministério publico que se pronuncie sobre a conduta destes veterinários.
Como é que é possível????
E a Ordem dos Veterinários já tem conhecimento? Há provas documentais?
Sónia Alves sim
Se há provas desta situação, é documentar e apresentar denúncia na Ordem dos Médicos Veterinários e queixa no Ministério Público!!!
Não há impunidade possível para barbáries 😡
Helena Isabel Sobral Há privados onde também, em vez de os tratarem, os matam e em sofrimento e nós leigos, provamos como? Precisavamos que um deles se dispusesse a confrontar os colegas com más práticas, mas nunca o farão publicamente e nós, utentes, podemos apenas reclamar e mostrar a nossa indignação. E no final, cobram uma fortuna.
Maria Moreira existem várias formas de provar, que não seja só com depoimentos.
Fotografias, descrições precisas, local, data, hora, episódio totalmente descrito.
A minha pergunta é: Chamam esse burro de VETERINÁRIO??????
Como é que um centro de recolhas de animais compactua com isto? Pouca vergonha