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Crónicas De Um Jornalista

Aqui está uma nova rubrica que promete animar o pessoal do Diário do Distrito.

Hoje começa aqui no Diário do Distrito, uma rúbrica que já é conhecida de todos vós: “As Crónicas De Um Jornalista”, um momento de grande humor mas também retrara a vida de várias aldeias, até a vida da própria Aldeia do Canto do Galo. Espero que gostem, sigam e partilhem muito.

Crónicas de um Jornalista n.º 119

Há terras onde o sino da igreja marca as horas. Na Aldeia do Canto do Galo, quem marca o tempo é a cusquice. Mal o sol espreguiça os primeiros raios, já há meia dúzia de almas encostadas ao balcão do costume, à mesa do costume ou à janela do costume, todas muito empenhadas na nobre arte de confirmar aquilo que ainda ninguém percebeu bem, mas que toda a gente jura ser verdade.

Foi assim que, na minha modesta sala de operações jornalísticas, entre um gole de água tisnada e a contemplação filosófica de uma parede que já viu mais segredos do que um confessionário em tempo de romaria, comecei a ouvir o assunto que varria a aldeia mais depressa do que vento em eira seca.

Sentadas com a solenidade de duas ministras sem pasta, estavam a Ti Aurora da Peida e a Ti Jaquina do Galo Careca, ambas equipadas com o olhar clínico de quem topa desgraça a três montes de distância. A conversa seguia animada, com aquele tom de quem começa por dizer “eu nem queria falar disto”, mas dali a dois minutos já fez a genealogia completa do desgraçado envolvido.

E o que se discutia com tanta devoção? A chegada triunfal do General dos Galos Cocas, uma figura saída diretamente da fábrica nacional da importância excessiva. Entrou na aldeia com pose de salvador, peito inchado, passo estudado e ar de quem vinha pôr ordem na capoeira. O problema é que, passados cinco minutos, já havia quem dissesse que aquilo não era um general, era um desfile ambulante com mania de decreto, vindo da Aldeia dos Quentes e Quentinhos. 

Consta que o homem vinha cobrar uns ovos antigos, emprestados em tempos de aperto ao já conhecido Zé da Gata Ferfulha, criatura que vive permanentemente com ar de quem perdeu a carteira, a dignidade e o rumo logo na mesma semana. Ora o Zé, que já mal dá conta da ninhada que lhe deixaram ao colo, anda agora feito equilibrista de feira, tentando segurar pintos, panelas, promessas e calotes, tudo ao mesmo tempo, e sem rede por baixo.

A embrulhada teria talvez remédio, não fosse o desaparecimento estratégico de certa figura ilustre, o célebre Rei que Vai Nu, antigo morador da Cadeira de Veludo Vermelha, homem dado a discursos compridos, promessas macias e saídas rápidas quando a conta aparece à mesa. Em tempos garantiu, de peito aberto e verbo untado, que resolveria a questão, que encontraria um benemérito, um tolo ou um distraído que pagasse os ovos, salvasse a honra e ainda batesse palmas no fim.

Pois sim.

Mal sentiu o primeiro cheiro, a responsabilidade, o Rei fez o que fazem os grandes vultos da nossa praça quando a coisa aperta: sumiu-se com a elegância de um gato que ouve a palavra “banho”. Agora consta que anda noutras paragens, transformado em trovador de salões, declamando versos ocos e distribuindo presença como se a memória das pessoas fosse curta. E pode ser curta, mas não tanto.

Ficou então o General a exigir os ovos com a firmeza de quem nunca oferece omeleta a ninguém, o Zé da Gata Ferfulha a engolir em seco enquanto a ninhada lhe sobe pelas pernas acima, e a aldeia inteira a assistir ao espetáculo como quem vai ao circo, mas sem pagar bilhete. Porque se há coisa que o povo aprecia é ver poderosos a discutir galináceos como se estivessem a decidir o futuro do reino.

Entretanto, já se cochicha outro enredo paralelo, protagonizado pela misteriosa Miss Saca de Batatas, senhora de mãos diligentes e zelo apertado, que terá metido os dedos em certas serapilheiras de onde não sai uma única batata sem bênção, licença e talvez certidão. Diz quem sabe, ou finge saber, que o produto é tão bom e tão bem guardado que nem o vento consegue levar uma casca para a rua.

Moral da história: na Aldeia do Canto do Galo, uns pedem ovos, outros fogem às contas, outros ainda fazem pose de estadistas com a grandeza de um espantalho ao domingo. E o povo, esse, vai rindo, porque percebe há muito que nesta comédia rural ninguém quer governar coisa nenhuma: querem apenas parecer muito ocupados enquanto empurram a cesta para o colo do vizinho.

Para a semana haverá mais. Numa terra destas, a paz dura menos do que um segredo contado em surdina.


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