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Chris Froome despede-se do ciclismo: a lenda que nunca deixou de lutar

O britânico anunciou o fim da carreira aos 41 anos. Fecha um percurso extraordinário com sete Grandes Voltas conquistadas, mas também com uma história de superação que marcou uma geração de adeptos do ciclismo.

O último quilómetro de uma carreira inesquecível!

Chris Froome anunciou esta quinta-feira o fim da carreira profissional, colocando um ponto final num dos percursos mais marcantes neste século da história do ciclismo. Aos 41 anos, o britânico despede-se do pelotão com um legado construído ao longo de quase duas décadas, durante as quais conquistou quatro Voltas a França, duas Voltas a Espanha e um Giro d’Italia, entre muitos outros triunfos.

O anúncio encerra uma carreira repleta de momentos inesquecíveis, mas deixa também a sensação de que um dos maiores campeões do século XXI merecia uma despedida diferente. Depois do grave acidente sofrido em 2019, Froome nunca voltou a recuperar o nível que o tornou praticamente imbatível nas Grandes Voltas. Ainda assim, recusou desistir e continuou a lutar até perceber que o corpo já não lhe permitia perseguir o mesmo sonho.

De Nairobi ao topo do ciclismo mundial

Nascido em Nairobi, no Quénia, a 20 de maio de 1985, Chris Froome iniciou a carreira longe dos tradicionais centros do ciclismo europeu. Competiu inicialmente pelo Quénia nos escalões jovens, antes de passar a representar a Grã-Bretanha, país da sua nacionalidade.

A afirmação no pelotão internacional não aconteceu de forma imediata. O verdadeiro salto surgiu na então Team Sky, onde evoluiu até se transformar no principal nome de uma equipa que revolucionou a forma de preparar e disputar as Grandes Voltas.

Entre 2013 e 2018 construiu um dos palmarés mais impressionantes do ciclismo moderno. Venceu a Volta a França em 2013, 2015, 2016 e 2017, conquistou a Volta a Espanha em 2011 e 2017 e triunfou no Giro d’Italia de 2018, tornando-se um dos poucos corredores da história a vencer as três Grandes Voltas.

Momentos que ficaram para sempre na memória

Contudo, as vitórias contam apenas parte da história. Froome protagonizou alguns dos momentos mais marcantes do ciclismo contemporâneo. Por exemplo, em 2016 surpreendeu adversários e especialistas ao lançar um ataque em plena descida rumo a Bagnères-de-Luchon, numa demonstração de coragem e inteligência tática que ainda hoje é recordada.

Curiosamente, nesse mesmo ano, viveu um dos episódios mais insólitos da história da Volta a França, quando uma queda provocada pelo bloqueio de uma mota da organização o obrigou a correr a pé na subida do Mont Ventoux, numa imagem que rapidamente deu a volta ao mundo.

Dois anos depois assinou aquela que muitos consideram a obra-prima da sua carreira. No Giro d’Italia de 2018 atacou na subida para o Colle delle Finestre, a cerca de 80 quilómetros da meta, recuperou uma desvantagem que parecia impossível e conquistou a camisola rosa numa das maiores recuperações de sempre numa Grande Volta.

Foram estes momentos – e muitos outros – que ajudaram a definir uma geração e que permanecerão na memória dos adeptos muito para além dos resultados.

Froome a correr durante a subida ao Mont Ventoux. Foto: Jean-Paul Pelissier / Reuters.

O dia em que tudo mudou…

Infelizmente, a 12 de junho de 2019, durante o reconhecimento de um contrarrelógio do Critérium du Dauphiné, uma rajada de vento desequilibrou Chris Froome quando seguia em velocidade. O impacto contra um muro provocou múltiplas fraturas, incluindo no fémur, anca, cotovelo, esterno, costelas e uma vértebra.

A partir desse instante, o objetivo deixou de ser conquistar mais uma Grande Volta. Aliás, o objetivo passou simplesmente o conseguir voltar a competir ao mais alto nível.

Froome regressou ao pelotão depois de uma longa recuperação, voltou a disputar as principais provas do calendário internacional e nunca escondeu a ambição de recuperar a competitividade que o levou ao topo do ciclismo mundial.

Porém, os resultados nunca voltaram a acompanhar essa vontade. Além disso, em agosto de 2025, sofreu uma nova queda grave. O próprio admitiu que foi nesse momento que percebeu que dificilmente conseguiria continuar a competir ao nível exigido pelo ciclismo profissional.

Não era assim que queria que terminasse

Ao contrário de outros campeões, Chris Froome nunca escolheu o momento perfeito para dizer adeus. Continuou a competir, mudou de equipa, aceitou um papel diferente no pelotão e recusou desistir, mesmo quando as vitórias deixaram de fazer parte da realidade. Aliás, até dava uma certa “pena” ver uma lenda deste desporto a “arrastar-se” como se nunca tivesse sido alguém que chegou a colecionar camisolas de líder da geral como muitos colecionam cromos do Mundial.

No entanto, a persistência acabou por se tornar uma das marcas da fase final da sua carreira. Se durante anos impressionou pela capacidade de vencer, nos últimos tempos conquistou o respeito de muitos pela forma como enfrentou as limitações impostas pelo acidente de 2019. Quando anunciou a retirada, resumiu tudo numa frase simples: “Não era assim que queria que terminasse.”

Chris Froome é muito mais do que sete Grandes Voltas no ciclismo

Os números colocam Chris Froome entre os maiores ciclistas da história. As sete Grandes Voltas conquistadas, os quatro triunfos na Volta à França, as dezenas de vitórias e os anos de domínio absoluto bastariam para garantir um lugar de destaque entre os melhores de sempre. Mas o seu legado vai além das estatísticas.

Muitos adeptos recordarão os verões em que a camisola amarela parecia ter encontrado um dono fixo. Outros nunca esquecerão a coragem demonstrada na descida para Bagnères-de-Luchon, a imagem improvável no Mont Ventoux ou o ataque inesquecível na Finestre, que mudou para sempre o Giro d’Italia de 2018. Nem todos os campeões conseguem escrever o final que sonharam e Chris Froome foi mais um dos que também não conseguiu.

Ainda assim, despede-se claramente como uma das figuras incontornáveis do ciclismo do século XXI e um dos maiores que este desporto já viu. Um campeão extraordinário, cuja história continuará a inspirar quem acredita que a grandeza não se mede apenas pelas vitórias, mas também pela capacidade de nunca deixar de lutar. Por tudo isto e muito mais…obrigado, Christopher Clive Froome!


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