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“Choveu em cima da minha filha”. As famílias contra a máquina autárquica.

Parte 2 da reportagem exclusiva do Diário do Distrito. Após recebermos uma denúncia tivemos acesso direto à realidade vivida por crianças, professoras e funcionários na Escola nº6 do Barreiro.

Entre os episódios mais relevantes, destaca-se a situação do telhado da escola, momento em que começou a luta dos pais. No início do ano letivo, a 15 de setembro, a escola não tinha telhado. Fátima diz que “choveu em cima da minha filha” e dos colegas da turma, uma das crianças ficou sem os manuais escolares na primeira semana de aulas por causa das chuvas, sem que a autarquia ou a junta se responsabilizassem, deixando ao encargo das professoras substituir o material. “Meteram o telhado porque nós (os pais) fizemos pressão”, afirma Fátima Horta. 

Video publicado por Luís Miguel Libório

Neste momento a escola tem um telhado provisório, em chapa, que foi colocado no dia 11 de outubro, mesmo antes das Eleições Autárquicas de 2025 realizadas no dia seguinte, a 12 de outubro. Mesmo nestas condições, a escola acolheu duas mesas de voto da União das Freguesias de Alto do Seixalinho, Santo André e Verderena, freguesia onde ganhou o PS com 51% dos votos. 

Segundo as declarações prestadas pela vereadora Sara Ferreira (PS) à SIC esta obra é uma intervenção na escola “de raíz”, mas a menos de 70 dias do prazo estipulado para terminar, só foi colocado um telhado provisório e o cenário de obras que se pode ver nas fotografias, que tem como epicentro o antigo pátio da escola e que se vai espalhando para fora dos seus limites, até às ruas do Bairro Alves Redol. 

Quando os pais se começam a organizar, Fátima Horta envolveu-se mais, e começou por enviar um e-mail diretamente ao Presidente da Câmara Frederico Rosa (PS), a perguntar se considerava normal a forma de execução das obras e a convivência das crianças com as mesmas. “As obras são mesmo assim”, foi a resposta do Presidente

Segundo a troca de e-mails a que tivemos acesso, a mãe, em desespero, respondeu ao presidente: “diz que as obras são mesmo assim porque não é na escola do seu filho, porque se fosse você pedia para arranjar condições para ele poder estar”. Frederico Rosa abandonou a linha de contacto com a mãe, acusando-a de não estar “interessada realmente”.

Já teria acontecido, no início do ano letivo, uma reunião entre os representantes dos pais (APAC), o agrupamento e a Câmara Municipal, que aconteceu no dia 19 de outubro. O Diário do Distrito teve acesso a um resumo da reunião elaborado pela Associação de Pais, onde destacaram “o consenso quanto à necessidade urgente de requalificação da Escola n.º 6, uma infraestrutura com 75 anos e graves limitações estruturais”. 

Contudo, a APAC reiterou que a falta de comunicação transparente por parte da CMB tem alimentado “ansiedade na comunidade escolar”, sendo reconhecida pelo município a necessidade “de melhorar o fluxo de informação”. Nesta reunião os pais pediram esclarecimentos à CM sobre “de onde veio a vontade de colocar as crianças nesta situação e para também perceberem os nossos receios”.

Foram discutidas alternativas inicialmente faladas, como monoblocos ou realocação temporária, mas ambas foram dadas como inviáveis pela autarquia nessa reunião. Os autarcas reforçaram ainda que os constrangimentos atuais — ruído, calor, poeiras e circulação difícil — são temporários e deverão ser mitigados com a conclusão da requalificação até dezembro de 2025.

Durante a reunião, foram discutidas várias medidas para melhoria dos acessos e sinalização, resolução da campainha e telefone, proteção do telhado, encerramento dos quadros elétricos, tratamento do chão, revisão da climatização, reparação de infiltrações e conclusão dos WCs. Foram ainda abordadas questões operacionais como falta de pessoal na cozinha, a falta de assistentes operacionais, instalações elétricas necessárias para equipamentos educativos e reorganização de espaços como a biblioteca e corredores. 

Segundo os apontamentos dos pais, foi-lhes prometido que as WC estariam concluídas até ao início de outubro, a cantina em novembro, o edifício principal da escola em dezembro e que os trabalhos de ampliação da escola começam em janeiro de 2026, com uma garantia de “impacto mínimo ao funcionamento da escola”.

Apesar de no documento constar que a autarquia está “totalmente disponível para coordenar as melhorias que identificamos para acesso mais seguro à escola”, até ao momento as crianças ainda não têm refeitório a funcionar, a campainha da escola não toca, e só as casas de banho estão a funcionar desde a primeira semana de novembro, ainda que “com divisórias de madeira”. 

EB 6 do Barreiro sem telhado no início das aulas

Com as eleições a aproximarem-se e com a pressão constante dos pais, com alunos a terem aulas numa escola ainda sem telhado, a CM Barreiro concede uma segunda reunião, que se realizou a 9 de outubro de 2025. Para conseguir esta reunião Fátima enviou três e-mails, e apenas à terceira vez conseguiu resposta da Vereadora Sara Ferreira. 

A reunião foi entre a vereadora Sara Ferreira e o vereador Rui Braga (PS), quatro pais (enquanto representantes das turmas) a Associação de Pais e a Direção do Agrupamento de Escolas Augusto Cabrita. 

Fátima Horta diz que questionou o vereador Rui Braga (PS) sobre “como é que as crianças vão para o refeitório em dias de chuva, uma vez que ainda não está construído o telheiro”, a resposta do vereador foi “os putos vão à chuva”. 

Segundo o relato de Fátima e Susana, ambas presentes na reunião enquanto mães, o Vereador Rui Braga, após ser questionado sobre não se ter usado contentores para salas de aulas, durante as obras no edifício, desafiou Susana a encontrar contentores com a desculpa de que “estão esgotados no mercado”. Susana, a mãe, ligou para uma empresa que lhe disse “quantos contentores quer?”. 

No seguimento desta reportagem

Os pais têm sido os membros da vizinhança mais vocais, mas não é preciso circular muito tempo em torno da obra para se ouvir os moradores do bairro a interagir com a realidade chocante: queixam-se da acumulação de lixo e do entulho da obra, do barulho constante até à meia-noite – e às vezes “até às quatro da manhã” – que se juntam às queixas dos idosos sobre as dificuldades e perigos da circulação na via pública.

Em resposta às perguntas – tanto da oposição partidária, como dos pais – o executivo socialista acusa-os sempre de serem “contra a obra”, desviando-se sempre do seu encargo, ouvir as populações e corresponder às suas necessidades básicas.

Perante esta situação, pedimos aos pais que nos ajudassem a levantar uma lista de questões para levar à entrevista com a Câmara Municipal do Barreiro. Apesar da tentativa de contactar com algum dos responsáveis, quando nos deslocamos diretamente ao edifício da CM Barreiro, esses responsáveis não estavam lá a trabalhar naquele momento, com a promessa de iam responder brevemente.

Até agora recebemos um e-mail de uma empresa de comunicações, a WLP, que pretende agora fazer a mediação entre a autarquia e o jornal, propondo que coloquemos as perguntas por escrito, porém, aguardamos ainda a confirmação do pedido de uma entrevista presencial ao Presidente da Câmara, Frederico Rosa e à vereadora Sara Ferreira, responsável pela Divisão de Educação.

Continua na parte 3.


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