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Chega desafia apelo da ONU e mantém projeto sobre identidade de género

André Ventura rejeita o pedido do alto-comissário das Nações Unidas para retirar ou rever a iniciativa e considera o diploma "absolutamente razoável".

Ventura rejeita pedido do alto-comissário da ONU

O Chega não vai retirar o projeto de lei sobre identidade de género, apesar do apelo do alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, para que as iniciativas do PSD, CDS-PP e Chega sejam retiradas ou revistas. Aliás, o próprio André Ventura considera que a proposta do partido é “absolutamente razoável”.

A posição do líder do Chega surgiu esta quarta-feira, depois de se conhecer uma carta enviada por Volker Türk ao presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco. O documento alerta para o risco dos três projetos poderem afetar negativamente o exercício de vários direitos humanos previstos em tratados internacionais ratificados por Portugal.

André Ventura reagiu através da rede social X, onde afirmou o seguinte: “Permitir a uma criança mudar de sexo é que não é aceitável nem justificável. Não vamos retirar a iniciativa!”. O presidente do Chega classificou igualmente o projeto do partido como “absolutamente razoável”.

Projetos estão em discussão na especialidade

Os projetos de lei do PSD, Chega e CDS-PP tiveram a sua aprovação na generalidade em março e encontram-se atualmente em discussão na especialidade na Assembleia da República. Entre as alterações propostas está a introdução de validação médica no processo de mudança do nome próprio e da menção do sexo no registo civil.

O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos considera que a exigência de certificação médica pode contribuir para “patologizar” novamente a identidade de género e afetar direitos como a privacidade, a autonomia e a autodeterminação das pessoas transgénero. A ONU defende que o reconhecimento legal da identidade de género deve assentar na autodeterminação e num procedimento administrativo simples.

A posição das Nações Unidas não se limita, contudo, à questão da validação médica. O organismo considera que as propostas, na sua atual redação, podem entrar em conflito com obrigações assumidas por Portugal ao abrigo de vários tratados internacionais de direitos humanos.

ONU critica proposta do Chega sobre a identidade de género

No caso específico do projeto do Chega, Volker Türk critica também a utilização da expressão “transtorno de identidade de género”. Segundo o Alto-Comissariado, a recuperação desta terminologia na legislação portuguesa poderá contribuir para a estigmatização das “pessoas trans”.

A iniciativa do partido pretende revogar a legislação atualmente em vigor e alterar as regras relativas à mudança de nome e género no registo civil. O diploma prevê ainda a proibição de tratamentos médicos em casos de disforia de género para jovens com menos de 18 anos, medida que o Chega enquadra na proteção de crianças e jovens.

Outra alteração prevista pelo projeto do Chega, igualmente identificada na análise das Nações Unidas, prende-se com a possibilidade de jovens de 16 e 17 anos alterarem o nome e o marcador de género no registo civil. Os projetos do PSD e do Chega pretendem eliminar essa possibilidade atualmente prevista na legislação.

CDS também é alvo de críticas

O projeto apresentado pelo CDS-PP é igualmente contestado pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A iniciativa prevê a proibição de tratamentos hormonais ou de bloqueadores da puberdade para menores de 18 anos.

A ONU alerta que uma proibição absoluta destes tratamentos poderá levantar questões relacionadas com o direito à saúde, à não discriminação e à participação das crianças nas decisões que lhes dizem respeito. O organismo defende ainda que o superior interesse da criança deve constituir uma consideração primordial e que eventuais restrições devem respeitar o princípio da proporcionalidade.

Perante estas preocupações, Volker Türk pediu aos deputados que retirem os três projetos. Caso as iniciativas avancem, o alto-comissário defende que sejam revistas através de consultas “transparentes e inclusivas”, com o objetivo de assegurar a sua conformidade com as normas e padrões internacionais de direitos humanos.

BE pede ao PSD para retirar iniciativa

A intervenção das Nações Unidas surgiu depois de uma queixa apresentada pelo deputado do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo e pela eurodeputada Catarina Martins, que alertaram para a possibilidade de uma reversão da legislação portuguesa sobre autodeterminação de género.

Depois de conhecida a posição do alto-comissário, Fabian Figueiredo apelou ao PSD para que retire o seu projeto. O deputado defendeu que o partido deve abandonar o que classificou como um “recuo legislativo” e seguir as recomendações internacionais na área dos direitos humanos.

Até ao momento, o Chega foi o primeiro dos três partidos visados a rejeitar publicamente o apelo da ONU, mantendo a sua iniciativa em discussão na Assembleia da República.


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