Cardeal Tolentino Mendonça recebe Medalha de Honra de Lisboa: «Cidade desmente a solidão»
Distinguido pela Câmara de Lisboa, cardeal português recordou a chegada à capital na Ponte Aérea dos Retornados e falou sobre integração, educação e o pontificado de Leão XIV
O cardeal D. José Tolentino de Mendonça recebeu esta quinta-feira, 17 de setembro, a Medalha de Honra da Cidade de Lisboa. A distinção foi entregue pelo presidente da Câmara Municipal, Carlos Moedas, numa cerimónia realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
A cerimónia contou com a presença do ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assim como de várias personalidades da política e do meio académico. Entre os presentes estiveram os antigos líderes do CDS-PP, Paulo Portas e Assunção Cristas e os vereadores da Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão (PS) e Bruno Mascarenhas.
Também marcaram presença a reitora da Universidade Católica Portuguesa, Isabel Capeloa Gil, e o diretor da Faculdade de Ciências Humanas da mesma universidade, Nélson Ribeiro, instituição à qual Tolentino de Mendonça esteve ligado durante vários anos.

A cerimónia começou com uma intervenção do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, seguindo-se o discurso do cardeal. No final, decorreu uma sessão de cumprimentos ao homenageado.
Nascido em Machico, na Madeira, em 1965, Tolentino de Mendonça passou parte da infância no Lobito, em Angola, antes de regressar a Portugal durante o processo de descolonização. Poeta, teólogo e biblista, foi ordenado padre em 1990 e bispo em 2018. Em 2019, o Papa Francisco criou-o cardeal e, desde 2022, é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, segundo a Agência Ecclesia.
A autarquia da capital atribuiu-lhe a Medalha de Honra como reconhecimento pela sua obra, pelo papel enquanto educador e pelo trabalho em prol do desenvolvimento humano.A atribuição da distinção tinha sido aprovada por unanimidade pelo executivo municipal a 27 de março de 2024, segundo a Câmara Municipal de Lisboa.
Moedas destaca capacidade de «unir»
No discurso que abriu a cerimónia, Carlos Moedas destacou três dimensões do percurso do homenageado: «o poeta, o pensador e educador, e o homem de diálogo». Para o presidente da autarquia, a medalha representa o reconhecimento dos lisboetas pelo trabalho desenvolvido pelo cardeal ao longo de décadas.
«Precisamos da sua poesia, do seu pensamento, da sua capacidade de unir», afirmou Moedas, citado pela Câmara de Lisboa.
«Uma cidade é o lugar da comunidade, onde estamos juntos»
Após receber a distinção, D. José Tolentino de Mendonça destacou aos jornalistas a importância das cidades enquanto espaços de comunidade e encontro.
«Uma cidade é o lugar da comunidade, onde estamos juntos. A cidade desmente a solidão. É o lugar do encontro, o lugar da companhia, o lugar onde construímos o bem comum», afirmou.
Para o cardeal, a medalha representa também uma responsabilidade na construção de uma cidade «justa, fraterna», onde exista espaço para a beleza e para a concretização dos sonhos das novas gerações.
«Que uma cidade não seja um conjunto de ilhas de solidão, mas seja verdadeiramente uma comunidade digna desse nome», acrescentou.
Por sua vez, durante o discurso na cerimónia, Tolentino de Mendonça abordou também os desafios da interculturalidade e defendeu «políticas efetivas de integração», cita a Agência Ecclesia. O cardeal sustentou que uma cidade «não se mede pela quantidade de gente que recebe, mas pela qualidade do reconhecimento que gera e da fraternidade que realiza».
Além disso, defendeu que «não há identidade que se sustente sozinha, desconhecendo ou colocando obstáculos à alteridade» e classificou toda a identidade como uma prática «inacabada» de hospitalidade, segundo o Diário de Notícias da Madeira
Chegou a Lisboa na Ponte Aérea dos Retornados
A relação de Tolentino de Mendonça com Lisboa começou ainda durante a infância. O cardeal recordou que chegou pela primeira vez à capital em 1975, proveniente do Lobito, através da Ponte Aérea dos Retornados. Essa ligação à capital esteve também no centro do discurso de agradecimento. «Não tendo nascido aqui, nasci aqui um milhão de vezes, porque há nascimentos que só o amor e a gratidão sabem contar», afirmou Tolentino de Mendonça, segundo a Câmara Municipal de Lisboa.
«Depois voltei para fazer a universidade, estive no seminário. Fui aqui professor 20 anos, fui capelão da Capela do Rato, fui vice-reitor da Universidade Católica, fui ordenado bispo no Mosteiro dos Jerónimos. Tenho uma morada municipal, então Lisboa é uma cidade em que me sinto em casa», recordou.
No mesmo discurso, o cardeal defendeu ainda a importância da memória coletiva na construção da cidade. «Não existe cidadania sem memória partilhada e a memória é matéria viva de futuro», afirmou, citado pela autarquia.
Além disso, no discurso que antecedeu estas declarações, o cardeal evocou também a chegada à cidade com o receio de «não encontrar chão para construir uma vida e uma beleza que perdurem», segundo a Agência Ecclesia.
Por outro lado, questionado sobre as transformações que Lisboa sofreu desde então, Tolentino de Mendonça considerou que a mudança não deve ser encarada com receio.
«As cidades estão sempre em transformação. As cidades são o que eram e são em cada dia novas. E a novidade da cidade, a sua transformação, eu penso que não nos deve assustar», afirmou.
Para o cardeal, é necessário introduzir nessa transformação «elementos que humanizem a cidade», para construir espaços onde todos se sintam acolhidos e integrados num projeto comum.
Nunca teve a aspiração de ser Papa
O cardeal português foi ainda questionado pelo Diário do Distrito sobre se mantém alguma aspiração de chegar ao cargo máximo da Igreja Católica.
«Eu nunca tive essa aspiração e estou muito feliz com o Papa Leão XIV», respondeu Tolentino de Mendonça.
Além disso, o cardeal considerou Leão XIV «um homem inspirado» e afirmou que, passado um ano desde a eleição, é possível perceber «porque é que o Espírito Santo o indicou para ser o Papa neste preciso momento histórico».
Questionado pelo Diário do Distrito sobre como avalia o pontificado e a transição após a morte de Francisco, Tolentino destacou a continuidade entre os dois papas.
«O Papa Leão é um Papa extraordinário. Basta ver a sua primeira encíclica, “Magnifica Humanitas”, dialogando com os grandes desafios da tecnologia e da inteligência artificial. A sua voz tem uma autoridade moral que verdadeiramente ajuda o mundo a ser melhor», afirmou.
«E isso, eu penso, vai bem na linha do Papa Francisco. Foi um Papa que semeou tantas sementes inesquecíveis no coração do mundo», acrescentou.
Visita de Leão XIV a Portugal? «Quem sabe?»
Tolentino de Mendonça não afasta a possibilidade de Leão XIV visitar Portugal.
«O Papa é novo, tem desejo de viajar, já esteve em Espanha, quem sabe?», respondeu quando questionado sobre uma eventual deslocação do pontífice ao país.
O cardeal ressalvou, contudo, que qualquer anúncio caberá aos bispos portugueses ou à Prefeitura da Casa Pontifícia.
De acordo com a Renascença, o Presidente da República já convidou Leão XIV a visitar Portugal em 2027, ano em que se assinalam os 110 anos das aparições de Fátima.
Questionado ainda sobre a continuidade à frente do Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino não adiantou qualquer decisão do Papa.
«Todos nós continuamos o nosso trabalho de colaboração com o Papa Leão, é o que lhe posso dizer», limitou-se a responder.
Educação é «a grande alavanca de humanização»
Enquanto responsável do Vaticano pela área da cultura e educação, Tolentino de Mendonça foi também confrontado com os resultados dos alunos portugueses e defendeu um reforço da aposta no ensino.
«Há um elemento que tem de ser um elemento congregador da nossa sociedade: o investimento na educação», afirmou.
O cardeal classificou a educação como «a grande alavanca de humanização e de direção justa das nossas sociedades» e defendeu uma «aliança global pela educação».
«Os momentos difíceis não nos devem desanimar, antes nos devem encorajar a fazer apostas claras nesta área», acrescentou.
Assim, para Tolentino de Mendonça, a educação permanece «um dos grandes horizontes do progresso humano».
«Se nós queremos uma civilização capaz de enfrentar o futuro com uma qualidade ética e de cidadania, nós precisamos de investir na educação», concluiu.
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