Barreiro | Mais de 28 horas sem água e “aulas num estaleiro de obra”. Tudo na mesma no Bairro Alves Redol
As obras de requalificação no Bairro Alves Redol continuam a marcar a vida dos moradores, meses depois das primeiras denúncias públicas sobre os impactos do estaleiro na vida da comunidade. A CM Barreiro recusa-se a conceder uma entrevista ao Diário do Distrito.

Ruas esburacadas, lama, circulação difícil e sucessivos cortes de água são hoje parte da rotina de quem ali vive, num bairro histórico do Barreiro com mais de 80 anos. Apesar de a intervenção ser apresentada pela autarquia como necessária e estruturante, e com a qual os moradores concordam, no terreno persistem queixas de falta de planeamento, de acompanhamento e de respostas claras aos problemas concretos que afetam a população.
Rosa Maria, de 75 anos, moradora do bairro há mais de sete décadas, descreve um cenário que considera “surreal” em pleno século XXI. “Os moradores do bairro sempre foram tratados, desde que estes senhores tomaram posse (atual executivo da Câmara), de coitadinhos. Nós não somos coitadinhos. Muitos deles até moraram aqui na zona e alguns deles brincaram neste bairro comigo. São tão coitadinhos quanto eu”.
“O Barreiro vive um pandemónio. Eu, por exemplo, não posso ir para um passeio que tenho medo de cair. Vou pela estrada cheia de lama, com cuidado. Os carros lá me vão vendo, vou pedindo desculpa. Tudo isto porque foi feito sem um plano, mas se foi feito com um plano, mostrem e digam”, afirma, apontando para a extensão das intervenções e para o impacto generalizado na mobilidade, no comércio local e na vida diária dos residentes.
Um dos problemas mais graves relatados prende-se com os sucessivos cortes no abastecimento de água, consequência direta das escavações para substituição de canalizações antigas. “A última vez estive 28 horas sem água. Em pleno século XXI isto é uma coisa surreal. Pense nas pessoas que trabalham, chegam a casa ao fim do dia e não têm água para cozinhar, para dar banho aos filhos”, relata Rosa Maria, sublinhando que a situação afeta sobretudo famílias trabalhadoras, idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
Não tenho nada pessoal contra as obras, o desenvolvimento, nada, rigorosamente nada. As obras são necessárias e são importantes. O que não houve aqui foi um planeamento de autarquia”, explica Rosa.
Apesar de reconhecer a necessidade das obras e de admitir que o bairro poderá ficar melhor no futuro, a moradora critica duramente a ausência de um plano claro e a falta de contacto direto do executivo municipal com os residentes. Para Rosa Maria, o problema não são as obras em si, mas a forma como estão a ser conduzidas: sem informação adequada, sem soluções alternativas e com um impacto prolongado que continua a ser vivido, diariamente, por quem chama o Bairro Alves Redol de casa.
No que diz respeito à Escola Básica nº6 do Barreiro, o drama vivido por alunos, pais e professores também se mantém, com maquinaria pesada a operar nas ruas circundantes e dentro da própria escola, colocando em causa a aprendizagem destas crianças, com barulho constante das obras.
Fátima Horta, voltou a falar com o Diário do Distrito, informando que estava “tudo na mesma” e que a única alteração desde a última reportagem publicada tinha sido que as crianças “já comem em louça decente”.
Tal como a situação, também a narrativa do município, da Junta de Freguesia e da direção da escola se mantém – para estas entidades está tudo a decorrer normalmente, sem qualquer tipo de constrangimento, tendo já executivo da União de Freguesias (PS) dito em assembleia que “chega de falar das obras na escola”.
O Diário do Distrito voltou a contactar Nuno Silva, eleito da CDU na União de Freguesias do Alto do Seixalinho, que nos concedeu uma entrevista. Diz que, para além de se manter a mesma situação no que diz respeito à acessibilidade no bairro e falta de segurança nas obras, também tem recebido queixas de pais e alunos que afirmam estar a ser prejudicados.
Segundo Nuno Silva, “a população sente-se indignada com perigo diário que tem ao fazer o seu dia-a-dia, é uma zona com uma população muito idosa e não foi salvaguardado nem planeado atempadamente uma alternativa para as pessoas se poderem deslocar, num dia podem passar por um caminho, no outro já está vedado e tem de fazer a volta a todo o quarteirão”.
Diz-nos que a respostas das entidades são de que “no dia-a-dia está tudo a correr normalmente, que não há queixas”. Contudo, o eleito da CDU diz que “quase todos os dias recebe queixas” da população, em particular dos pais e dos alunos, que se queixam de estar a ser privados da sua segurança e saúde, “porque têm de se deslocar à chuva para o refeitório” atravessando um corredor de gravilha que atravessa o estaleiro da obra.
Os encarregados de educação dizem ainda que as crianças estão a ser privadas de ir para o pátio brincar, desde o início do ano letivo. Esta obra estava prevista estar pronta em outubro, contudo o prazo foi prolongado, os encarregados de obra substituídos, sendo que os moradores informaram o Diário do Distrito que lhes foi dito pelo encarregado atual que, no final do mês de março, pode acabar o financiamento da obra e a mesma permanecer embargada por tempo indeterminado.
O executivo da Câmara Municipal do Barreiro, da Junta de Freguesia e os serviços responsáveis recusam-se a conceder uma entrevista ao Diário do Distrito para esclarecer a situação dramática vivida no Bairro Alves Redol e pelos alunos da EB nº6 do Barreiro.
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