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Autárquicas | Flávio Oliveira defende que o Barreiro pode caminhar para “futuro mais verde”

Entrevista exclusiva com Flávio Oliveira, candidato a presidente da Câmara Municipal do Barreiro pelo Livre e Bloco de Esquerda. A candidatura faz uma avaliação positiva dos últimos anos de executivo do PS, mas considera que o Barreiro pode ter uma evolução "verde" até 2030.

Nasceu e cresceu no Barreiro?

Eu cresci no Barreiro mas não nasci no Barreiro, na verdade estava sempre dividido entre a casa dos meus pais em Alhos Vedros e casa dos meus avós, essa sim no Barreiro. Tenho estado sempre com os meus avós desde pequeno, vi o Barreiro a mudar desde 1990, andei nas escolas aqui e eventualmente aos 18 anos fui para Lisboa para a universidade, mas os meus amigos estavam quase todos cá.

Como foi crescer aqui?

Inicialmente não era uma pessoa muito sociável, era uma pessoa bastante mais tímida do que sou agora, os meus amigos eram praticamente só amigos da escola e familiares. Na faculdade comecei a fazer amigos de fora. Naturalmente tive o privilégio de acompanhar toda a evolução do município, quando os comboios eram a carvão e não havia parque da cidade, não havia forum Barreiro, não havia nada disso. Nesse sentido, posso saber como o Barreiro era e como evolui, da minha experiência internacional sei até onde o Barreiro pode ir, é graças a esta experiência que nos candidatamos a estas autárquicas.

Qual é o seu percurso profissional?

Tive muitos anos ligado à academia, fiz licenciatura, mestrado e doutoramento na área da biologia, só quando acabei o doutoramento é que comecei a trabalhar fora da academia, numa vertente mais prática de conservação da natureza, trabalhei com o ICNF e com o Parque Natural de Sintra-Cascais, e eventualmente dei um pulinho nas ciências sociais, num projeto financiado por fundos europeus. Depois fui a uma entrevista na Bio Insight e é lá que tenho estado desde 2024 e agora sou consultor ambiental. 

Qual foi o seu primeiro contacto com a política e em particular com o partido Livre?

O meu ponto de viragem foi quando entrei no meu doutoramento, quando passei a ter uma perspetiva mais internacional de como as coisas funcionam. A conservação não se pode dissociar da política, são os decisores que dão orçamento para pôr os projetos em prática. Comecei a tornar-me politicamente mais ativo no Livre depois de 2020, porque foi aí que senti que não me sentia satisfeito em votar, mas que queria contribuir ativamente para as políticas nacionais, tudo na área do ambiente. Depois disso fui crescendo internamente. 

Em alguns concelhos de Setúbal foram feitas coligações com o Bloco de Esquerda, mas noutros não avançou. 

Qual foi o critério utilizado pelo Livre para avançar com estas coligações?

Tem a ver com as dinâmicas dos partidos e com as realidades locais, não posso falar de outros municípios. Desde que começámos a assistir ao crescimento da direita e sobretudo da extrema-direita que eu me apercebi que tem começado a haver um desequilíbrio em que a direita é a maioritária. De forma a equilibrar as forças de esquerda para que possam ser elegíveis, tenho apelado a uma união das esquerdas, nomeadamente com o Bloco de Esquerda, e em certos casos com o PS. Foi já em 2024 que eu e o Bloco começámos a conversar para perceber se tínhamos pontos em comum para fazer esta coligação acontecer.Houve um esforço de se fazer estas coligações noutros concelhos e conseguimos em três, Almada, Seixal e Barreiro, e nos outros municípios tem a ver com dinâmicas locais.

Mas garante que estas coligações não foram firmadas a partir de uma perspetiva taticista, em locais onde o Livre tinha menos implantação ou concelhos onde o Bloco tinha mais representação? 

Não, de todo que não partiu de um ponto de vista tático, reunimos ao nível distrital e vimos que temos um manifesto comum de tentar coligar de um ponto de vista local, e depois cada concelho fez a mesma reflexão de encontrar pontos em comum. Felizmente no Barreiro tivemos sucesso.

Mesmo não tendo representação autárquica, qual foi o trabalho desenvolvido pelo Livre no concelho do Barreiro nestes últimos quatro anos?

Ficou muito aquém daquilo que nós desejaríamos, o Livre estava ainda em crescimento com poucos membros e apoiantes ao nível distrital, e então não conseguimos fazer muito trabalho autárquico. Isso começou a mudar em 2024 quando começou a chegar uma nova leva de novos membros e nós aqui começamos a perceber como podíamos conhecer melhor o Barreiro e perceber melhor a situação das populações, ao nível da cultura, do ambiente, mobilidade. Tentar perceber o que estava a ser feito e o que se pode fazer até 2030, uma altura em que o Barreiro pode deixar a imagem cinzenta das fábricas e da CUF e passar a um Barreiro progressista e verde. 

Em Lisboa o Livre foi coligado não só com o BE mas também com o Partido Socialista. No Barreiro optaram por ser oposição aos socialistas. 

Considera o PS de Lisboa diferente do PS do Barreiro? 

A coligação em Lisboa veio com o objetivo de derrotar as políticas de Carlos Moedas que, daquilo que eu tenho acompanhado, têm sido desastrosas. Aqui no Barreiro como tem sido o PS a fazer a execução temos uma imagem mais positiva.

Qual é a avaliação que fazem dos últimos anos do Partido Socialista à frente do executivo?

No geral é positiva. É claro que há falhas, senão não nos estaríamos a candidatar. Mas considerando os anos de executivo da CDU, em que o concelho progrediu devagarinho, naturalmente o PS chegou aqui e houve um desenvolvimento muito maior. Mas há críticas que fazemos a este executivo.

Quais esses problemas que identificam?

Sobretudo a participação dos Barreirenses na vida política, que antigamente acontecia. As pessoas conheciam-se, mas agora por causa da transição nacional para o digital achamos que os cidadãos não sentem que são capazes de ir às reuniões de câmara e fazer a diferença. A mim também me fez muita confusão o desaparecimento do orçamento participativo, que era das melhores manifestações de política local que nós temos.

Quais são os principais pontos a destacar no vosso programa eleitoral?

A nossa candidatura assenta em três pilares: a habitação, a mobilidade, o ambiente e a sustentabilidade. Na habitação, o que nós queremos é reequilibrar a oferta dando mais força à habitação pública e menos à habitação privada. O que acontece é que neste momento há uma grande oferta privada, e queremos ir para lá dos 5% de habitação pública, até 2030 queremos mais de 10%, reabilitando os edifícios devolutos da Câmara e fornecendo apoio jurídico às cooperativas de habitação. Não somos contra os JaBa e os Platinums que vêm aqui construir empreendimentos de luxo, somos contra termos uma oferta de habitação a que os barreirenses não conseguem aceder.

Se queremos ter habitação e desenvolvimento no município, só conseguimos isso criando uma rede de transportes que serve também as freguesias da periferia, que estão ainda muito deficientes. O nosso objetivo é estar presentes nas reuniões de câmara para pressionar e fazer chegar estas ligações. Também queremos fomentar a partilha de bicicletas.

Para o ambiente, que engloba muita coisa, temos a vertente dos espaços verdes, onde queremos ter um corredor ambiental das fábricas da CUF até ao Sapal de Coina, outra é, ao nível da sustentabilidade, a questão da gestão de resíduos. O que os outros partidos fazem é discutir se devemos ter uma empresa municipal ou privada, e verdade seja dita desde que a gestão é privada a qualidade de recolha piorou, mas a nossa narrativa é vir mais atrás, pegar naquilo que tem sido feito noutros municípios ao nível europeu, que é reduzir a produção do lixo. É preciso haver uma colaboração com o comércio local e com as grandes superfícies para reduzir o uso de plásticos descartáveis e ter produtos à venda a granel, ou em embalagens de vidro.

Se bem entendo, pretendem negociar, por exemplo, com a Sonae, ao nível local, uma medida de substituição das embalagens nas grandes superfícies. 

Que incentivos pretendem dar a estas multinacionais?

Podemos dar um desconto na taxa de derrama, baseada em critérios sustentáveis, se adotam boas práticas ambientais. Depois é fazer aquela negociação típica camarária para que estas superfícies adotem estas medidas.

Outra medida é dar a oportunidade aos nossos avós de ensinar aos comerciantes que sejam capazes de vender, a parte da reparação dos monos. Em vez de mandar monos para fora de casa, temos empresas locais que podem dar-lhes uma nova vida e vender a outras famílias que precisem. Queremos contribuir para uma política de lixo zero, é olhar para os exemplos europeus e praticá-los localmente até 2030.

O Barreiro pode ter melhorado do ponto de vista ambiental, mas perdeu a grande capacidade produtiva que tinha. 

Como é que pretendem resolver o problema da fixação de postos de trabalho?

O Barreiro é muitas vezes chamado dormitório, nós também queremos retirar esta imagem e fomentar o desenvolvimento local. Com as nossas políticas, com mais habitação, mais mobilidade, isso acaba por vir tudo associado também. Já temos a startup Barreiro onde temos um sitio onde as pessoas onde podem ir trabalhar e desenvolver as suas empresas para se tornarem mais competitivas, mas podemos ir ainda mais além, queremos colocar estas empresas em contacto com o Politécnico do Barreiro e juntar isso às escolas, e começar a criar inovação aqui no Barreiro para servir os barreirenses. No fundo trazer colaboração para o desenvolvimento tecnológico, dando também incentivos a quem já cá está, aprofundando a Startup Barreiro.

Na área da cultura e do desporto, quais são as medidas que quer destacar?

Vamos começar pela cultura, o Barreiro sempre foi um concelho forte no associativismo e na cultura, e a câmara tem dado um grande incentivo financeiro. Sentimos que faltam novos espaços para que as diferentes associações e comunidades desenvolvam o seu trabalho e se possam reunir, juntar forças e trocar ideias. 

Garantindo que a câmara continua a dar os mesmos incentivos para o desporto, gostaríamos de apoiar mais o desporto náutico, temos uma ideia para a Quinta Braamcamp, que é usar aquelas lagoas para o nascimento de um clube náutico para desenvolver canoagem e remos.

Do ponto de vista da segurança, e em particular da criminalidade, concordam com a instalação de câmaras de vigilância? 

Fala-se muito em segurança, mas é um tema mais abrangente, passa também por garantir que não há atropelamentos e acidentes, reduzir e desincentivar o uso automóvel, limitando a velocidade no centro do Barreiro.

Temos de dotar a PSP e a GNR de meios para fazer o policiamento de proximidade, para que as pessoas conheçam as pessoas que vivem nos prédios e atuar antes da situação escalar. Isto também passa por trazermos mais a polícia para as escolas, começar com a educação a este nível, para combater o bullying e os abusos.

Somos contra a videovigilância até que nos apresentem um estudo que diga que resulta, isto acaba por ser uma medida mais preventiva, e isso nem sempre funciona, o que os estudos académicos nos dizem é que há sítios em que funciona e que noutros não funciona, tem a ver com a forma como se recolhem os dados.  


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