Autárquicas | Daniela Rodrigues defende que Setúbal necessita de uma “mobilidade suave”
Entrevista exclusiva com Daniela Rodrigues, candidata do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Setúbal. Para além do “direito à beleza” natural e da necessidade de uma “mobilidade suave”, a candidata afirmou ainda que considera o Livre “irresponsável” por não avançar com uma coligação com o Bloco.

Nasceu e cresceu em Setúbal?
Eu nasci em Lagos, vivi lá até à maioridade e depois ingressei na faculdade, mudei-me para Lisboa e uma vez concluída a formação académica olhei ao meu redor e pensei, em que sítio é que quero morar. Interessa-me imenso a vida comunitária, a prática coletiva de desporto e desde de nova que tenho um interesse por Setúbal, por isso a escolha para mim foi óbvia. Por isso mudei-me há cerca de uma década porque sabia que Setúbal reunia todas as condições para ser a cidade do futuro.
Qual é o seu percurso profissional?
Formei-me em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e por isso interessou-me desenvolver a competência das línguas clássicas, no estudo do mandarim e depois a correlação da história de Portugal com os continentes americano e africano. É com base nessa formação que estudo espólios, particulares e institucionais, e faço a avaliação técnica e patrimonial de livros raros, em prestação de serviços.
Quando se dá o seu primeiro contacto com a política?
Foi sem mediação alguma no contexto da minha juventude em Lagos, por conceber uma vida comunitária, estudei todas as opções políticas existentes no quadro nacional e identifiquei-me prontamente com o Bloco de Esquerda e com o seu ideário, por isso submeti o meu pedido de adesão e continuo comprometida com esse partido que, para mim, simboliza a alternativa da esquerda progressista, inclusiva e verde no país.
Qual tem sido o trabalho autárquico desenvolvido pelo Bloco de Esquerda ao longo da última legislatura?
Temos a representação na Assembleia Municipal do nosso colega Vítor Rosa, com trabalho feito na denúncia das descargas em Poçoilos ou na denúncia ao incumprimento do contrato com a Data Rede. Por exemplo, a proposta para a construção do Centro de Saúde de S. Sebastião e da Bela Vista é uma proposta do Bloco de Esquerda.
Noutros concelhos do Distrito de Setúbal o Bloco tem formado coligações pré-eleitorais com o Livre.
Porque não avançaram com uma coligação no concelho de Setúbal?
Eu posso perguntar-me exatamente o mesmo, porque considero paradoxal que o Bloco de Esquerda, demonstrando o seu compromisso com a população e sendo que apresentou candidaturas aos sete órgãos, Assembleias de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal, agora do Livre estamos habituados a ouvir ao nível nacional que são a força política que apela à convergência e à união, e esse caminho e esse entusiasmo não se verificou no concelho de Setúbal. Pessoalmente não considero que seja responsável fragmentar-se o voto à esquerda. O Livre decidiu que numa capital de distrito não iria seguir com esta estratégia e não nos apresentou razões para esta decisão.
Considera que o Bloco de Esquerda é uma força de oposição aos executivos da Coligação Democrática Unitária no Distrito de Setúbal?
Eu não posso generalizar ao nível distrital. No quadro de Setúbal estamos a falar da última capital de distrito que é comandada pela CDU. O Bloco é uma oposição firme e vigilante, nunca age como força de bloqueio, somos uma força construtora de soluções, somos uma força indutora do aumento da pluralidade e da democracia local.
Qual é a sua avaliação do trabalho desenvolvido pela CDU na Câmara Municipal de Setúbal?
É uma avaliação de mais de quatro anos, estamos a falar de uma gestão autárquica que não oferece uma visão estratégica e integrada de um concelho, que não apresentou forçosamente rasgo. Se queremos ter salários qualificados e uma população com uma vida digna temos de ter uma atividade económica em harmonia com isso. Temos de conseguir atrair economia de conhecimento, tecnologias de ponta e que façam uma conjugação feliz entre as instituições do ensino superior e o parque industrial do Vale da Rosa, por exemplo.
A autarquia tem de ser exemplar e isso não se verificou no concelho de Setúbal que, em boa hora, ficou autónomo de Lisboa na atribuição de fundos comunitários. Quanto a uma avaliação genérica da gestão deste executivo, assistimos tardiamente à denúncia dos contratos da Data Rede e às Águas do Sado. É uma avaliação insuficiente.
Quais são os problemas que o Bloco de Esquerda identifica na cidade de Setúbal que requerem maior atenção?
Mobilidade não pensada. Não existe uma mobilidade suave, de escala, sustentável e movida a energias verdes, há também uma falta de ciclovias. Relativamente à habitação, a autarquia, perante estas dificuldades de acesso à habitação não ofereceu uma resposta condigna e em tempo útil, não só não construiu como alienou parte desse parque habitacional.
A CDU também não definiu uma limitação ao alojamento local, não definiu zonas de pressão turística, não teve uma visão orientada a quatro anos. Depois há a questão ambiental. Somos um concelho com um património incomensurável, a autarquia tem de ser a primeira a defender este património.
Em que pontos considera que o executivo não defende o património ambiental do concelho?
A vigilância às atividades industriais. A autarquia tem de ser o primeiro olho, nos casos que aparecem. Por exemplo, veja-se no caso do Parque de Merendas da Comenda, que perante o avanço da família Mirpuri o Bloco de Esquerda defendeu a utilização de um espaço que é de todos, temos de ter o direito à beleza.
Foi a CDU que recuperou a utilização pública da Comenda, porque considera que não defende esse espaço patrimonial da cidade?
Só o Bloco pode denunciar esta situação de maneira coerente, atentos a esta nova tentativa da família Mirpuri, voltamos a denunciar, a câmara tem de salvaguardar o direito a usufruir dos espaços públicos. Cabe à autarquia levantar as novas vedações que foram colocadas para conter esses avanços, a família tem o seu território mas não pode extravasar a sua ação.
Quais são as principais propostas que constam do compromisso eleitoral do Bloco de Esquerda?
O nosso programa é extenso. O Bloco defende metas municipais de construção de casas públicas, construção sustentável, com preocupações de eficiência energética, de combate à pobreza climática, que a autarquia tome a dianteira das casas públicas, é necessário construir mais para dar resposta a esta necessidade como uma medida indutora da maior paz social.
A autarquia tem de promover também, ad nauseam, as rendas acessíveis, tem de ser incansável. Tem de pensar na mobilidade integrada, no ordenamento do território e acabar com as marcas segregadoras do território, para uma resposta efetiva do Estado, dentro daquilo que são as competências da autarquia.
Há candidaturas que defendem que a videovigilância e a polícia municipal são uma solução para aumentar a segurança na cidade.
Concorda com a implementação destas medidas?
Importa relembrar a definição de segurança, é tão importante e tutelar que alberga a segurança ambiental, sanitária, política. É estar em nossas casas ou na rua e não termos medo de sermos atacadas em função da orientação sexual, do nosso género, da nossa pertença étnico racial.
Estamos nesta altura numa luta dilacerante contra as percepções públicas e aqui temos de ser bastante cautelosos. É perigoso andar na rua, não há sinalética adequada, não há compromisso com atropelamento zero na cidade, a cidade não está pensada para uma mobilidade suave.
Falava em particular da criminalidade. Quais são as propostas do Bloco de Esquerda para o combate à criminalidade no concelho?
Vamos lá ver, no que diz respeito às câmaras de videovigilância, eu acho que é imprudente democraticamente reconvocar a ideia de vigilância repressiva do Estado sobre os cidadãos e de que não confiamos nos nossos concidadãos, o Bloco de Esquerda opõe-se à instalação de videovigilância.
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