Autárquicas 2025 l Entrevista Exclusiva com Sérgio Alves, candidato da coligação Almada em Comum (LIVRE e BE) à Câmara Municipal de Almada
Série de entrevistas exclusivas com os candidatos à Presidência da Câmara Municipal de Almada, às Eleições Autárquicas de 2025 no Distrito de Setúbal. Entrevista a Sérgio Alves, candidato da Coligação Almada em Comum (LIVRE e BE).
Quem é o Sérgio Alves?
O Sérgio Alves é um almadense de gema — ou seja, nascido, criado, educado, vivo e trabalho cá. Sou, portanto, um claro filho da terra e, assumidamente e orgulhosamente almadense, um professor de História. Licenciei-me em História, fiz depois uma pós-graduação — aliás, um mestrado em História Antiga — e, mais tarde, formei-me também na área da Educação, tanto para História como para Geografia, duas disciplinas. Atualmente, estou a tirar um doutoramento em Política de Administração e Gestão Escolares.
Acho que era preciso também ter esta parte mais administrativa, económica. Sou professor há já 15 anos, tendo passado por contextos privados e escolas diversas. Agora, sim, estou vinculado aqui numa escola de Almada. É este Sérgio Alves que se assume agora um bocadinho na política também — mais como cidadão, preocupado com a situação de Almada — aqui, numa Almada em Comum. Partilho princípios, valores e, sobretudo, um grande sentido de missão. Ou seja, encabeço esta candidatura espelhando todos os princípios e valores que ambos os partidos defendem, mas também, pessoalmente, com um grande sentido de missão.
Qual foi o primeiro contacto com a política?
Eu nunca tive um contacto direto com a política. Ou seja, fui sempre aquela pessoa muito atenta — pela parte da História, interessa-me bastante. Analiso muito os ciclos históricos que existem. Desde os dezoito anos que sempre fiz parte das mesas de voto, ou seja, essa era a minha participação quase voluntária e natural na cena política. E, nestas últimas legislativas, posso dizer que fiquei um bocadinho incomodado — para não dizer outra coisa — e senti que estava na altura de me posicionar. Está na altura de muitos jovens — e de muita gente — saírem de trás dos ecrãs, de saírem de detrás da conversa de café ou em família, e de se posicionarem. Ou seja, assumirmos a nossa posição, para que isto não resvale, para que a democracia não se perca e para que a liberdade se mantenha.
Porquê esta coligação entre LIVRE e Bloco de Esquerda?
Esta coligação, só pelo nome, percebe-se muito bem o que quer dizer. É Almada em Comum, e aqui “em comum” deve entender-se no sentido de comunidade. Acho que se perdeu, em Almada, sobretudo nestes últimos anos, esse sentido de comunidade, esse sentido de proximidade e esse sentido de transparência. Almada cresceu sempre muito com base nas suas associações, com base neste contacto direto com a população, e há agora um afastamento drástico.
Uma pessoa com quase 40 anos a viver em Almada — sendo que nunca saí daqui — sente, às vezes, e a minha geração sabe isso – a muito custo – que há um grande afastamento nestes últimos anos. E Almada em Comum é isso. Ou seja, é trazermos outra vez os almadenses para o centro das decisões políticas, ouvirmos essas pessoas e, acima de tudo, uma coligação verdadeiramente de esquerda. Não podemos esquecer que, nestes últimos anos, o PS coligou-se à direita — ou seja, coligou-se com o PSD — e achamos que não implementou verdadeiramente políticas de esquerda, que sempre foram muito profícuas em Almada. Nós trazemos essa comunidade — mas uma comunidade muito progressista. Ou seja, são políticas de esquerda, mas revisionadas, atuais, ecologistas. E, lá está, é para voltar a reconstruir, a engrandecer, a fortalecer essa comunidade. Daí o “comum”.
O que é que pretendem melhorar no concelho nos próximos quatro anos?
Uma das primeiras bandeiras que nós temos é a habitação. É uma questão que não atinge somente Almada — atinge Portugal inteiro. Outra bandeira é a mobilidade. E o desenvolvimento sustentável dessa mesma mobilidade e, sobretudo, também a sensação de inclusão. Ou seja, Almada sempre foi um concelho de braços abertos para toda a gente, e tem-se fechado em si mesma. Por isso, posso dizer que as grandes bandeiras são: habitação, mobilidade, inclusão e solidariedade. Claramente para fomentar e engrandecer a comunidade inclusiva e solidária. As nossas propostas têm sempre uma base muito ecológica e com a preocupação ambiental.
Em relação à habitação, mais especificamente, o que é que pretendem resolver? Como vão combater o turismo selvagem e os preços das rendas?
Primeiro, é fundamental criar já um plano de emergência para a habitação, ou seja, um plano que esteja bem estruturado ao nível do executivo. É preciso criar rendas acessíveis — e, quando dizemos rendas acessíveis, referimo-nos sobretudo à classe média, que precisa de trabalhar e viver cá, em Almada. E aqui junto a habitação com a questão do emprego. Ou seja, queremos que as pessoas não tenham de sair de Almada ou de Lisboa, que deixemos de ser um território “dormitório” e que as pessoas possam viver e trabalhar cá. Queremos criar uma verdadeira simbiose entre empreendedorismo, emprego e habitação. Reabilitar o património que a própria Câmara tem. Às vezes não é preciso construir mais. Isso tem um impacto muito importante ao nível ecológico. Há vários imóveis da própria Câmara que podem ser reabilitados para habitação camarária, com preços acessíveis, e, sobretudo, combater a especulação que existe no mercado imobiliário. Ou seja, é preciso que o executivo tenha algumas premissas que façam de Almada um concelho para todos — e não só para alguns. Não ter grande especulação de grandes empreendimentos que depois não são acessíveis a todos.
Existem cerca de 4%, quase 5%, de habitação que a Câmara reabilita. Nós queremos chegar aos 10%. Queremos que 25% dos imóveis que sejam criados sejam de rendas acessíveis. Focamo-nos muito nessa parte de deixar que o concelho seja só dormitório. Tem crescido nesse sentido, mas queremos que as pessoas vivam, trabalhem e queiram cá ficar.
Também na área do emprego e do desenvolvimento sustentável do próprio concelho, propomos a criação de cooperativas, para que diferentes empresas e tipos de trabalhadores possam trabalhar cá. Para que a Câmara estimule este tipo de cooperativas. Todas estas medidas — estes valores de habitação — já estudámos e são possíveis. São medidas que já vimos acontecer em outros sítios e que achamos, conhecendo muito bem o nosso território, que são possíveis de aplicar aqui.
Custa-me um bocadinho ver alguns candidatos que nem sequer são de cá — que vieram cá há um ano, que não têm o mínimo de conhecimento do concelho. Até a atual Presidente nem sequer cá vive. É preciso saber o que é apanhar o metro, o que é ir para Lisboa estudar, como eu fiz. É preciso pessoas que sintam o território. Acho que não podemos vir de Bruxelas, de Mafra ou de outro sítio qualquer, cair aqui de paraquedas e achar que trazemos milagres e soluções, quando a nossa coligação é composta por pessoas que são de cá, que sentem esta cidade há muitos anos, que percebem muito bem o que a cidade precisa, o que quer e o que a cidade merece. É este o sentido de missão que esta coligação tem, e que eu encabeço com muito orgulho. Porque acreditamos que são estes princípios e estes valores que temos em comum que podem ser transformadores e que podem, realmente, trazer democracia e liberdade de volta a Almada.
E sobre saúde e educação?
Acho que é um ponto negativíssimo na gestão. E aí há, claramente, incompetência por parte deste último executivo. A higiene pública está diretamente associada à saúde pública. Ou seja, o lixo, as ervas… Almada tornou-se quase um mato urbano por incompetência da Câmara. A autarquia desculpa-se muito por falta de trabalhadores. Mas precisamos deixar de pôr a culpa nos outros e tentar arranjar soluções. Nós temos soluções nesse sentido.
Uma delas é fundamentar as freguesias com mais poder neste tipo de questões, garantindo proximidade: que o município ou o freguês detecte uma situação e tenha logo uma equipa rápida que tente atuar sobre o efeito. É esse tipo de proximidade que aproxima as pessoas da política, fazendo-as sentir que a democracia é viva e que fazem parte dela. Nós acreditamos piamente nessa proximidade. É nessas pequenas ações que isso acontece, inclusive ao nível da saúde.
Claro que o centro de saúde da Costa já está em vias, mas não podemos esquecer a Trafaria. É uma das grandes bandeiras dessa freguesia: garantir que haja um polo efetivo, ainda que em parceria com a Costa, para que a Trafaria e os seus fregueses não sejam esquecidos.
A saúde, tal como a habitação, não é apenas uma questão autárquica, mas nacional. Em situações de âmbito nacional, é aí que temos de fazer pressão perante o Governo — seja qual for a força política. A melhor forma de o fazer é através de um esforço intermunicipal. Temos exemplos disso: o Passo Navegante foi um esforço coletivo que se conseguiu e se fez. Então, porque não replicar esta proximidade, esta comunidade, na saúde e na habitação? Criarmos forças energéticas para que consigamos fazer a tal pressão. O problema não é só nosso. É também do Seixal, de Sesimbra, do Barreiro… E estou a falar sobretudo do Distrito de Setúbal. Uma união maisdistrital, intermunicipal, para que haja essa pressão.
E aqui chegamos ao ponto que queria destacar: o Hospital Garcia de Orta recebe imensa gente. Na Margem Sul estão os concelhos mais populosos de Portugal — incluindo Seixal e Almada. E eu, como utente, posso afirmar: o Hospital Garcia de Orta tem médicos e enfermeiros incríveis. Tem especialidades incríveis. Eles fazem um trabalho humano, hercúleo, e também de proximidade.
O grande caos surge na urgência, porque o hospital não consegue absorver toda esta massa de utentes. A sul do Tejo, somos nós que recebemos quase tudo. A criação de um hospital no Seixal, como esforço intermunicipal e de cooperação entre hospitais, seria uma mais-valia muito grande para aliviar a pressãode utentes que existem no Hospital Garcia de Orta. No nosso programa, estamos a trabalhar para criar esta sinergia: que as pessoas tenham acesso rápido a centros de saúde e hospitais, garantindo tratamentos céleres.
Eu sou fruto de políticas profícuas que existiram em Almada. A alfabetização musical, por exemplo. Havia grandes projetos municipais de uma força incrível, unificando todas as escolas de Almada. E perdeu-se essa comunidade, essa força. Cada agrupamento acaba por funcionar como ilhas. Agora que as escolas passaram para a autonomia das autarquias, é a oportunidade de a autarquia criar um projeto comum, sinergético, que interligue todas estas questões. Ainda que o Governo tenha algumas medidas de educação que podem ser postas em causa, são as próprias escolas que acabam por dar resposta a algumas lacunas que às vezes existem.
A escola, a tal proximidade e comunidade, começa aí. Ou seja, os próprios alunos intervirem na comunidade. Haver projetos em que sabem que estão a construir a sociedade, a democracia e a liberdade. E acho que isso tem-se perdido muito. Os agrupamentos e as escolas não agrupadas, como eu dizia há pouco, funcionam um bocadinho como ilhas. Cabe ao pelouro da educação criar projetos. E não é aquele projeto que esta Câmara tem, muito estético — parece uma laranja bonita, mas quando se espreme não tem grande sumo. Eu, que estou em campo, sei perfeitamente disso. Eu acho que a educação pode mudar vidas.
Passando para o ensino superior, não podemos esquecer que somos um concelho com três institutos superiores. Há um grande fosso entre o ensino secundário e o ensino superior. É necessário criar mais proximidade e sinergias entre o ensino básico, secundário e superior no próprio concelho. Ou seja, o aluno percebe que sai da escola aqui e não precisa de comprar casa noutro sítio, podendo continuar o seu ciclo de estudos com qualidade na própria cidade. É um fator de segurança e de confiança no futuro. Nós somos uma coligação que se pauta por isso. Somos oposição, mas marcamo-nos por ser uma coligação de esperança. É aqui que está a forma de não perdermos a democracia e a liberdade: temos de lá deixar a semente e fazer com que ela cresça.
Um dos grandes objetivos é criar essa ligação entre escolas – ensino básico, ensino secundário e ensino superior. Falam muito sobre combate ao individualismo. Isto é a vossa forma para as pessoas serem menos individualistas?
Sim. Às vezes, não é o aluno de mérito, mas a escola de mérito, o projeto de mérito, a ação. É o aluno sair do espaço escolar, da comunidade educativa, para a comunidade civil — ou seja, ele (o aluno) sentir-se parte integrante da própria cidade. Isso faz com que depois crie um vínculo, não se desligue daqui, queira viver, ficar e morar cá, e perceba a sua participação democrática e cidadã. Eu acho que aqui é criar projetos de cidadania ativa, onde o aluno arregaça as mangas, põe mãos à obra e sente que pertence, sente-se em comum. É o nosso nome, é o nosso slogan, porque, efetivamente, abarca também a criação de comunidade das escolas, dos alunos e da sociedade civil.
De que forma pretendem melhorar os transportes públicos e as ligações a Lisboa?
Nós somos apologistas da extensão do metro até à Costa, mas queremos que, antes de pensar nessa extensão, se trate primeiro do que o metro de superfície oferece atualmente.
Na nossa proximidade com os almadenses, recebemos várias sinalizações de estações que não têm acessibilidade para todos. Por exemplo, para pessoas em cadeiras de rodas ou para pessoas invisuais não existem sinais sonoros. A escola onde eu leciono é uma escola de recepção para invisuais, e eu tenho muita noção da população invisual em Almada e das necessidades que eles têm. Nós (a coligação) estamos a construir um programa muito participado pela comunidade. Estamos a tentar criar uma aplicação em que a pessoa detecta, no mapa, qual é a necessidade. E, como defendemos, não se trata apenas de apontar o problema, mas também de apresentar soluções. Essa aplicação permitirá que a pessoa indique o problema e apresente a solução — os dois P’s: problema e propósito. Ou seja, não queremos apenas uma candidatura que apresente problemas, mas sim que envolva as pessoas na solução. Acho que é uma abordagem altamente construtivista e positiva — é assim que esta coligação se posiciona.
Extensão do metro até à Caparica e depois à Trafaria, mas também queremos cuidar de todas as estações, para que a mobilidade para todos seja possível. Devemos começar já estudos para Charneca e Sobredo, para que esse lado do território não fique esquecido. É um lado que está em grande crescimento. Se estamos a usar esses recursos humanos, devemos fazer prospecções para que as construções que são feitas agora sejam feitas não com uma visão casuística ou a curto prazo, mas com uma visão a longo prazo.
Somos muito apologistas do reforço do transporte fluvial. Seria muito importante, mais do que o túnel ou a ponte, pensar numa travessia Trafaria–Algés, especialmente para pessoas que trabalham na zona da Oeiras. Seria quase como shuttles constantes. Não podemos esquecer que a Transtejo tem uma frota elétrica parada, e é preciso resolver essa situação, transformando o transporte fluvial num transporte mais ecologicamente sustentável. É necessário exercer pressão para que seja decisivo. A criação dessa ligação seria muito proveitosa para os almadenses.
A nossa primeira grande premissa é tirar os carros da cidade e arranjar alternativas aos carros. Alargou-se a IC20 para os carros, o que trouxe mais congestionamento. Por que não criar uma ciclovia que ligue Almada à Costa? Seria incrível poder ir de bicicleta até à praia. Esta era uma oportunidade de criar uma via ecológica que se perdeu.
É sobretudo aproveitar as oportunidades políticas e com políticas de proximidade que incluam as pessoas. Por isso, assegurar o metro que temos e alargar a linha do metro que temos, assegurarmos as travessias para Lisboa, de forma mais ecológica e, dentro da própria cidade, tentar evitar os carros, criando ciclovias para que as pessoas possam circular em Almada com mais facilidade.
Almada tem de ser para todos. Temos que deixar de olhar apenas para o nosso umbigo. Este último executivo, achamos nós, colocou-se sempre numa posição de arrogância. Nós propusemos — neste caso, o Bloco, mas também os cidadãos em geral — muitas propostas que seriam viáveis e não foram ouvidas. Nós, ao ganharmos a Câmara, nunca nos colocaremos nesse pedestal. Ou seja, aquela Almada em Comum vai manter-se com este grau de proximidade, com este grau de ouvir os almadenses e de ouvir as outras fações políticas. O diálogo e a transparência são dois pilares da nossa ação.
Foi decisivo, nestes últimos anos, o acordo PS-PSD — um entendimento um pouco ad hoc. Nós, cidadãos e a classe política, ninguém soube muito bem que acordo era este. Entretanto, o PSD sai no último ano e o orçamento é chumbado. Tudo feito sem transparência, muito opaco, sem se perceber claramente como se teceu esse acordo. Nós não queremos isso. Queremos que os almadenses saibam o que está a ser feito para o bem comum e que suas vozes sejam ouvidas. E temos essa experiência: sempre que o PS quis dialogar à esquerda, houve medidas bastante proveitosas.
A questão animal é também uma das nossas bandeiras. O centro animal que vai ser agora construído resulta de uma política de esquerda, com diálogo à esquerda, porque teve esse apoio e foi concretizado. É a prova concreta de que um verdadeiro diálogo à esquerda podia ter trazido políticas muito mais proveitosas para Almada. O que nos move é posicionar-nos claramente — Almada, nesta esquerda — e numa esquerda que seja progressista. Não é uma esquerda alicerçada ou ancorada em preceitos ortodoxos, que não são viáveis no século XXI. É uma esquerda preocupada com os almadenses, mantendo a proximidade, mas também integrada no contexto em que vivem. É por isso que esta é uma candidatura muito progressista.
Sobre esta questão dos animais que mencionou, quais são as vossas propostas?
O centro de recolha animal — nós queremos que não haja apenas um. O acompanhamento animal de séniores é uma das nossas propostas. A própria Câmara, por exemplo, poderia ter programas de vacinação gratuitos. É uma questão animal, mas também é uma questão de saúde pública. Ou seja, todas as nossas medidas estamos a tentar entroncá-las, quase como se fosse uma grande árvore a crescer, porque todas se interligam. Achamos também que não podemos simplesmente copiar medidas de outros concelhos, como Mafra, e esperar que funcionem cá. O cubo pode ser muito bonito, mas aqui está um triângulo — não vai dar. É preciso perceber situações análogas, onde medidas foram muito profícuas, e adaptá-las ao nosso território. Por exemplo, a vacinação gratuita contra a raiva dada pela Câmara poderia ser administrada pelos alunos que estão a estudar veterinária numa das faculdades de Almada, até como parte do estágio. É uma medida de proteção animal que, simultaneamente, se entrelaça com saúde pública e educação, apoiando a prática dos cursos superiores de veterinária já existentes no nosso território.
A cultura e o associativismo é um dos vossos eixos orientadores do programa. Quais são as propostas?
Almada é o que é hoje em dia porque tem grandes associações e grandes clubes criativos. Temos vários relatos de que muitas dessas associações acabaram por ficar sem apoios, sem fundos, porque se perdeu essa proximidade. A Câmara permaneceu no seu pedestal, enquanto as associações tentavam trabalhar, e criou-se um fosso muito grande. É necessário que a Câmara volte a interligar essas associações, para que, tal como nas escolas, não funcionem como ilhas, mas exista um esforço coordenado. Esse esforço permitirá criar uma simbiose entre a cultura e o desporto, pois muitas dessas associações são culturais e desportivas.
Nestes últimos anos, tem-se gasto muito na cultura, mas é uma cultura “estética”. É a cultura de massas — a tal laranja muito bonita, muito suculenta: esprememos e não tem sumo. Nós achamos que tem de haver uma cultura que transforme os cidadãos, que traga algo de novo, que proporcione aquilo que as pessoas gostam de ouvir e de ver, mas que seja também acessível a todos. Cada vez mais existe um fosso entre cultura erudita e cultura popular. Há público para todo o tipo de cultura, mas esse fosso foi criado nos últimos anos por esta Câmara. Espetáculos de massa, esteticamente, são apenas celebrações e não têm impacto cultural na mudança de comportamentos ou no crescimento da população. Por outro lado, uma cultura muito erudita, fechada em si mesma, sempre com os mesmos núcleos, não se preocupa em chegar a todos. Ou seja, não só a cultura de massas precisa de contribuir para o crescimento cultural da população, mas também a cultura erudita deve sair da sua bolha e tornar-se mais acessível a todos. É assim que as pessoas crescem e se tornam mais ecléticas. Hoje, a cultura parece cada vez mais estar dividida em caixinhas, fechada em segmentos e em targets (alvos) públicos específicos. Nós queremos que a cultura deixe de ser assim e passe a ser uma cultura para todos. Temos uma medida muito interessante: as Casas da Criação. É uma das nossas propostas — a criação destas Casas da Criação.
É uma das nossas bandeiras: a questão dos direitos humanos. Quando falei da parte da inclusão, referia-me, por exemplo, à criação de uma Provedoria dos Direitos Humanos em Almada, que também estimule a cultura da inclusão e do olhar para o outro. Esta Provedoria trabalharia em conjunto com as Casas da Criação, porque é aí que se realiza o grande trabalho da inclusão. É aí que se trabalha a segurança, é aí que se dá formação e perspectivas às pessoas, para que o olhar de todos não seja racista ou homofóbico — ou seja, para que seja um olhar de aceitação e inclusão. É trabalhar nesses pontos, e não numa autarquia policial. Nós acreditamos que o trabalho da perseguição só vai estimular ainda mais a desunião, e não a inclusão.
Na prática seria uma atuação nas escolas ou a nível de criação de oferta cultural? Como é que idealizam esta Provedoria?
A Provedoria funciona como órgão, como setor dentro da própria Câmara, e vai estabelecer várias atividades, tanto nas escolas como na área sénior, utilizando grandes eventos culturais para criar algumas bandeiras e chamar a atenção. Esta Provedoria acaba por ser da própria Câmara, mas depois ramifica-se nas freguesias, através de atividades nos vários locais.
A Casa da Criação é um espaço onde o trabalho conjunto das pessoas — do escultor, do coreógrafo, do cantor, entre outros — traz um alavancar enorme à cultura. Os artistas precisam, e a cultura precisa, de estar em contacto. Precisam de trocar ideias. E que seja a Câmara Municipal a disponibilizar esses espaços. Que sejam espaços multiculturais e multiartísticos, para que os artistas de todas as áreas — plásticas, performativas, entre outras — se sintam acolhidos, façam trabalhos conjuntos, até bastante fora da caixa e diferentes. Dessa forma, a cultura não terá apenas um efeito estético bonito de massas, mas permitirá o surgimento de novidades, fazendo crescer a cultura no seu verdadeiro sentido. As Casas da Criação serão uma das nossas grandes medidas para que o Executivo da Câmara atue de forma consistente em todo o concelho, utilizando alguns espaços físicos que já existem.
A tal Casa da Criação, onde acolhemos os artistas, consiste em reunir diferentes tipos de artistas que trabalham no mesmo projeto, trazendo noções e criatividade de fora, que podem depois se conjugar em projetos muito concretos. Esses projetos, realizados na Casa da Criação, no concelho, serão posteriormente apresentados aos almadenses. Esta Casa da Criação tem de ser um espaço aberto, em que todas as pessoas possam também participar na criação, na execução do próprio projeto. Não se trata de o público ter um papel passivo, apenas assistir. Não. Trata-se de trazer o público para a criação, para que possa participar com proximidade e em comum, criando coisas conjuntas. É aquilo que dizia há pouco, com a educação: é sentir-se parte. E acho que a democracia tem resvalado nestes últimos tempos porque as pessoas têm sentido que não fazem parte. Não queremos isso. Queremos que Almada seja este concelho que chama os almadenses para as suas atividades, para a sua decisão política e, neste caso, para as suas criações artísticas e culturais.
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