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Ataque ao jornalismo não pode ser normalizado

Acidente com a democracia e a censura?

Há gestos que valem mais do que um discurso inteiro. Em Coimbra, o que se viu foi isso mesmo: uma autarca a apontar o dedo a um jornalista, a pôr em causa a sua integridade profissional e a declarar, em plena praça pública, que lhe retira a confiança. O alvo foi um jornalista da lusa. Mas o recado não ficou preso a um nome. Foi dirigido a todos.

Quando um responsável político decide transformar o incómodo perante uma notícia num ataque pessoal ao jornalista, não está apenas a reagir mal. Está a tentar inverter a ordem das coisas. Numa democracia, não é o poder que avalia a legitimidade do jornalismo. É o jornalismo que escrutina o poder. Esta diferença é básica. E quando ela começa a ser tratada como detalhe, o problema deixa de ser um episódio e passa a ser um sintoma.

O caso de Coimbra é grave precisamente por isso. Não se trata de uma troca azeda de palavras, nem de uma irritação momentânea perante uma peça jornalística. Trata-se de uma tentativa de descredibilização pública de um profissional da informação recorrendo a uma velha arma: lançar a suspeita de motivação política para enfraquecer o trabalho jornalístico. É um método conhecido, usado sempre que a notícia incomoda mais do que convém admitir.

Dizer que um jornalista deve entregar a carteira se “quer fazer política” é mais do que uma frase infeliz. É uma forma de intimidação. É um aviso. É a construção de um ambiente onde o jornalista deixa de ser visto como mediador entre factos e cidadãos e passa a ser tratado como adversário. Ora, quem confunde escrutínio com militância não revela força. Revela desconforto com a transparência.

É importante dizê-lo com clareza: jornalistas erram, como erram políticos, magistrados, médicos ou professores. E quando erram há mecanismos próprios para responder. Há pedidos de esclarecimento, direito de resposta, queixas às entidades competentes, recurso às regras profissionais e legais. O que não pode acontecer é um cargo público utilizar o peso institucional para humilhar, pressionar ou condicionar quem faz perguntas e publica informação de interesse público.

O ataque ao jornalismo começa raramente com censura formal. Começa quase sempre assim: com a insinuação, com o descrédito, com a hostilidade calculada, com a tentativa de colar ao jornalista uma agenda escondida. Começa na ideia de que só é aceitável a notícia que não incomoda. E vai a crescer cada vez que alguém com poder percebe que pode tratar a imprensa como um inimigo sem pagar preço político por isso.

É por isso que Coimbra não deve ser lida como um caso local, menor ou passageiro. É um aviso sério sobre o tempo que vivemos. Um tempo em que demasiados responsáveis públicos gostam da cobertura mediática, mas detestam o contraditório. Querem câmaras, não querem perguntas. Querem palco, não querem fiscalização.

Defender o jornalista da lusa, neste caso, não é um ato corporativo. É defender um princípio que protege todos os cidadãos. Quando se tenta domesticar a imprensa, não é apenas a profissão que perde. É o público. Porque uma democracia onde os jornalistas trabalham sob ameaça, suspeição ou represália é uma democracia que começa a aceitar o silêncio como método de governo.

Hoje foi em Coimbra. Amanhã será onde houver poder sem freio e jornalismo sem proteção. E quando esse dia chegar, já não bastará dizer que ninguém viu o sinal. Ele está à vista.


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