Opinião

Aos 55 anos, descobri Que a Democracia Ainda Tem Preconceitos

Reflexão sobre os preconceitos enfrentados por mulheres do meio artístico que assumem papéis cívicos e políticos na sociedade portuguesa.

Há uma estranha ideia instalada em certos meios públicos: a de que a seriedade tem uniforme. Que há profissões autorizadas a falar de cidadania, de compromisso e de política local e outras que devem ficar caladas, entretendo apenas, sorrindo apenas, decorando apenas. Como se a democracia tivesse dress code. Como se a credibilidade viesse carimbada no cartão profissional.

E talvez seja isso que mais dói quando alguém vindo do meio artístico decide ocupar espaço cívico: o preconceito silencioso. Ou pior, o preconceito dito em voz alta, mascarado de comentário inteligente. “Ah, mas é influencer.” “Ah, vem do espetáculo.” “Ah, faz rir as pessoas.” “nem ovos sabe estrelar nos vídeos que publica!”

Como se humor anulasse inteligência. Como se comunicar com milhares fosse menos digno do que discursar para dezenas. Como se emocionar pessoas durante décadas não fosse também uma forma profunda de serviço público.

A pergunta certa nunca deveria ser: “Ela vem do meio artístico?”

A pergunta devia ser: “Ela trabalha? Estuda os dossiers? Ouve as pessoas? Tem coragem? Tem ética? Tem sentido de responsabilidade?”

Há um detalhe simbólico que não é pequeno: ter sido a primeira mulher presidente da associação de estudantes da Escola Secundária da Bela Vista, em Setúbal. As “primeiras mulheres” nunca têm caminhos fáceis. As primeiras mulheres abrem portas levando com elas a dúvida dos outros. Em cada época muda a forma da resistência, mas ela existe sempre. Ontem era “uma rapariga não consegue”. Hoje é “uma influencer não serve”

O mecanismo é o mesmo. Apenas mudou o vocabulário.

Há também uma confusão perigosa entre popularidade e superficialidade. Como se presença digital anulasse pensamento. Como se comunicar bem fosse pecado. Curiosamente, ninguém critica um político por aparecer demasiado na televisão. Mas uma mulher do meio artístico que comunica nas redes passa imediatamente a ser vista como alguém “menos séria”.

Existe aqui um velho preconceito social: o de aceitar homens mediáticos como influentes e mulheres mediáticas como decorativas.

Mas uma assembleia municipal não devia ser um concurso de posturas. Nem um campeonato de gravatas invisíveis. Devia ser um lugar de representação humana. E os cidadãos não vivem apenas de linguagem técnica. Vivem de cultura, sensibilidade, empatia, criatividade, memória coletiva, capacidade de mobilizar pessoas. Tudo isso também é política. Talvez até seja a política mais importante.

Não, não é preciso andar de vuvuzela para vir do meio artístico. Nem fazer da vida pública um palco de anedotas. O humor, aliás, pode coexistir com profundidade. As pessoas mais inteligentes muitas vezes usam humor porque entendem o absurdo humano. E quem faz rir também sabe falar sério, talvez melhor do que muitos que nunca fizeram ninguém sentir nada.

A verdade não depende da profissão, é preconceito social “vestido” de opinião política.

E talvez haja um incómodo maior por trás dessas críticas: pessoas do meio artístico chegam ao público sem intermediários. Falam diretamente com pessoas reais. Criam ligação emocional. E isso incomoda estruturas habituadas a decidir quem merece voz. Mas democracia não pertence a castas profissionais.

Uma mulher que dedicou quase quatro décadas à arte, que abriu caminhos desde jovem, que comunica, mobiliza e pensa a sociedade, não é menos capaz numa assembleia municipal. Pode até levar para lá algo raro: AUTENTICIDADE, e autenticidade continua a ser uma coisa difícil de suportar para quem se habituou apenas à encenação da respeitabilidade.

Tenho dito!


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