Opinião

António José Seguro ignora ‘Educação’ como desafio estrutural para o país

A omissão da escola, da ciência, da inovação e do ensino superior na enumeração dos “12 desafios estruturais do país” constitui um elemento politicamente significativo e, do ponto de vista estratégico, profundamente revelador das prioridades políticas assumidas no discurso de tomada de posse de António José Seguro.

Desde logo, é necessário sublinhar que qualquer diagnóstico sério sobre os problemas estruturais de Portugal dificilmente pode ignorar o papel central do sistema de ensino.

A educação não é apenas um setor de política pública entre outros. Trata-se de um verdadeiro pilar estruturante da organização social, responsável pela formação das novas gerações, pela produção de conhecimento científico, pela qualificação da força de trabalho e pela preservação e transmissão da língua, da cultura e da identidade nacionais.

A omissão torna-se ainda mais evidente quando se observa que vários dos desafios identificados no discurso, como o crescimento económico insuficiente, baixos salários, desigualdades sociais, pobreza persistente ou falta de mão-de-obra qualificada, têm precisamente na escola, na formação e na inovação científica um dos seus principais instrumentos de resposta estrutural. Ignorar esta dimensão significa, em larga medida, reconhecer os sintomas sem identificar as causas profundas nem os instrumentos de transformação necessários.

O sistema educativo constitui um dos principais mecanismos de articulação entre a família e os restantes subsistemas sociais como o mercado de trabalho, o sistema científico, a administração pública e a vida cívica. É na escola, na universidade e nos centros de investigação que se formam os quadros que asseguram o funcionamento do Estado, da economia e das instituições.

A ausência desta dimensão num discurso que pretende diagnosticar os desafios estruturais do país revela, portanto, uma visão incompleta da própria estrutura social.

Acresce que o ensino superior e a investigação científica desempenham hoje um papel central na afirmação internacional dos países. Num contexto global marcado pela competição tecnológica, pela economia do conhecimento e pela disputa estratégica em torno da inovação, desvalorizar a academia e a ciência significa fragilizar a capacidade soberana de desenvolvimento nacional.

A escola e a universidade não são apenas espaços de qualificação técnica; são também instituições fundamentais de transmissão cultural e de formação cívica.

Ignorar esta dimensão num discurso presidencial revela uma ausência de sensibilidade relativamente ao papel da educação na defesa da identidade nacional.

Há ainda uma dimensão geracional que não pode ser ignorada.

No contexto jovem Portugal encontra-se marcado por fenómenos persistentes de emigração, elevado desemprego e dificuldades de acesso à habitação.

Assim, a ausência de qualquer referência clara ao sistema de ensino e à valorização do mérito académico transmite um sinal político preocupante quanto às prioridades estratégicas para o futuro e para as famílias.

Por estas razões, esta omissão não pode ser encarada como um simples detalhe discursivo. Trata-se de um sinal político relevante sobre a hierarquia de prioridades identificada pelo novo Presidente da República.

Num momento em que Portugal enfrenta desafios estruturais profundos em termos demográficos, económicos e institucionais, seria expectável que a escola, a ciência, a inovação e o ensino superior fossem reconhecidos como alicerces estratégicos do desenvolvimento nacional.

O facto de tal não ter ocorrido merece uma reflexão crítica clara.

O futuro do país constrói-se nas escolas, nas universidades e nos centros de investigação.

Ignorar essa realidade num discurso fundador de mandato constitui um sinal que não pode passar despercebido a quem acompanha e trabalha diariamente as políticas públicas da educação, da ciência e da inovação.


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