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André David Piedade: o concorrente de Sesimbra que leva a memória do mar para o MasterChef da RTP1

André David Piedade, 34 anos e natural de Sesimbra, entrou no MasterChef da RTP1 com a memória do mar no prato e uma cozinha que resume em “conforto, simplicidade e satisfação”.

André David Piedade tem 34 anos e chega ao MasterChef da RTP1 vindo de um percurso fora das cozinhas profissionais. “Trabalho num pequeno negócio familiar com base em padaria e pastelaria na zona de Sesimbra, o nome é Segredos da Terra”, conta na entrevista. Diz que começou cedo: “Comecei a trabalhar com a minha família muito cedo aos 20 anos” e foi construindo competências “com alguma formação técnica e empenho”.

Fora do programa, descreve uma vida centrada na estabilidade e na família. “Vivo com a mulher da minha vida (Micaela), com o meu beagle (Sushi) e gato.” Nos tempos livres, procura o que lhe dá paz. “Adoro pescar e tento passar o máximo tempo possível com a família.”

A origem como escola de sabores e de disciplina

André assume-se como alguém marcado pela zona rural de Sesimbra. Para ele, crescer ali foi uma aprendizagem diária de produto e de esforço. “Viver em Sesimbra ensinou a gostar do produto na sua origem”, afirma, lembrando o papel dos avós na formação do seu paladar e da sua mentalidade. “Cresci junto dos meus avós que entre agricultores, produtores de leite, padeiros e pescadores me mostraram o melhor que podemos ter em cima da nossa mesa.”

A disciplina, diz, veio do mesmo lugar. “Ensinaram-me também que nada se consegue sem esforço” e reforça uma ideia que repete como regra de vida. “As melhores coisas da vida são as mais difíceis.”

Memórias à mesa que ainda hoje emocionam

Quando fala da primeira memória ligada à comida, André regressa à avó e a um doce tradicional. “O prato que me traz mais recordações é a farinha torrada, um doce tradicional que passei muitos dos meus dias a fazê-lo com a minha avó.” A infância, porém, tem mais imagens fortes. Recorda o “bife na pedra” que “a minha mãe servia no restaurante Flor do Adro em Alfarim aos meus 5 anos”, e confessa uma paixão simples e muito portuguesa. “A minha perdição, carapauzinhos fritos com arroz de tomate.”

Há também um prato de casa que o toca de forma especial. “Tomatada, prato que comia muitas vezes com os meus avós, um prato humilde muitas vezes feito com o básico que existe numa casa mas que me enchia o coração.”

“Cozinha de Sesimbra” é mar no prato

Na entrevista, André define a sua cozinha com três palavras. “Conforto, simplicidade e satisfação.” E quando lhe perguntam o que é para si a cozinha de Sesimbra, a resposta é imediata. “Sesimbra terra de peixe marisco claramente.” Mesmo apreciando carne, sublinha a influência da origem. “O mar faz parte da minha educação.”

Os pratos e produtos que defende refletem essa identidade. “Enguias fritas ou ensopado, massa de peixe, peixe assado, farinha torrada.” E se tivesse de levar um júri a Sesimbra para comer uma coisa, André aponta dois momentos que, para ele, dizem tudo sobre o território. “Ensopado de enguias no Lagoeiro” ou “peixe assado num pequeno restaurante Pérola Dourada, liderado por antigos pescadores que tem o melhor e mais fresco peixe que já comi na vida.”

Cozinhar como refúgio e objetivo

A cozinha, para André, é mais do que gosto. É uma forma de apagar ruído e encontrar foco. “Quando começo a cozinhar sinto que todos os meus problemas se apagam.” A recompensa está na reação de quem prova. “Ao ver a satisfação de quem prova o que faço chega para me encher a alma e ter o desejo de fazer sempre melhor.”

A candidatura ao MasterChef, explica, nem sequer partiu dele. “No fundo foi uma inscrição surpresa que não partiu de mim, mas sim de um familiar.” E reconhece um traço da sua personalidade. “Sendo uma pessoa um pouco fechada nunca me iria inscrever autonomamente.” Primeiro veio o choque, depois a gratidão. “Foi um choque mas com o tempo acabei por agradecer o gesto.”

O que quer provar a si próprio é claro. “Que sou capaz de ultrapassar este desafio, e que apesar de não ser a minha área posso chegar até a final.” E identifica quem mais o empurrou para a frente. “A pessoa que mais força me transmitiu e apoiou foi sempre a minha mãe, tentou ensinar-me o máximo possível e preparar-me para este desafio.”

Dentro do set, pressão e relógio a correr

Questionado sobre o que mais o surpreendeu no set, André aponta o ambiente e a exposição. “Para quem não está habituado lidar com tantas câmaras e pressão no set foi realmente o mais surpreendente.” Quando o cronómetro começa, o impacto chega em duas frentes. “O maior choque era sempre a decisão do que preparar para os chefes, e segundo choque era a velocidade que o relógio andava.”

Houve momentos de quase desistência, mas André explica como os ultrapassou. “Claro, acho que quase todos passamos por isso”, diz, antes de justificar a mentalidade que o segura. “Sempre pensado que estar ali é um privilégio e na quantidade de pessoas que gostavam de estar no nosso lugar, acho que essa foi a chave para nunca desistirmos, levantar a cabeça e continuar a lutar.”

Críticas, elogios e aprendizagem

O comentário mais duro que recebeu, recorda, foi sobre uns rissóis. “O comentário mais duro que tive foi provavelmente sobre uns rissóis, de que a decoração tinha ficado nos anos 90.” Ainda assim, afirma que tenta transformar críticas em evolução. “Em todas as críticas tento sempre ver o lado positivo, aceitar como sendo construtiva e admitir que realmente podia ter feito melhor”, lembrando a exigência do contexto. “Afinal estamos a ser julgados pelos melhores chefs nacionais em provas contra relógio.”

Já o elogio que mais o marcou foi um reconhecimento que lhe deu vontade de continuar. “Os chefs dizerem que ficavam com vontade de provar mais pratos feitos por mim.” Para André, esse tipo de retorno tem peso. “É muito gratificante todo o nosso esforço e empenho ser recompensado a esse nível.”

Forças, fragilidades e assinatura

André identifica os seus pontos fortes de forma direta. “Os meus pontos fortes são sabor, organização e técnicas.” A maior dificuldade que tem sentido no programa está noutro plano. “A maior dificuldade que tenho sentido é a criatividade”, explica, porque muitas vezes surgem “ingredientes que não estamos habituados a trabalhar” e isso traz “receio e indecisão”.

A assinatura, essa, está definida. “Massada de peixe.” Quanto ao processo criativo, diz que começa no olhar. “Gosto sempre de olhar para os ingredientes disponíveis e ao olhar automaticamente começo a magicar possibilidades de pratos.” No equilíbrio dos sabores, descreve uma lógica de construção e ajuste final. “Primeiro penso nas principais características de cada ingrediente e nos temperos que se enquadram, tentando imaginar a união de todos, e corrigindo no fim através do palato.”

Na lista do indispensável, não hesita. “Cebola.” E no ingrediente que ainda não encaixou, a resposta também é imediata. “Gengibre.”

O que quer deixar no final e o que sonha depois

No final do MasterChef, ganhe ou não, André quer que a imagem que fica seja a de alguém com valores simples. “Que entendam que sou uma pessoa humilde e que estou sempre pronto para um bom desafio, nunca desisto, e que tudo o que cozinho é sempre a pensar em agradar a quem provar.”

Quanto ao futuro, não fala em sonhos vagos. Fala em planos. “Gostava de ter a minha própria marca de pão com base em massa madre e formações de pastelaria.” E deixa um conselho a quem está fora dos grandes centros e quer levar a cozinha a sério. “Invistam em formação, nunca pensar que já se sabe muito, e não desistir nos primeiros obstáculos, o caminho é longo mas que traz resultados ao longo do tempo.”


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