Almada

Almada acolhe Conferência sobre Sustentabilidade

Almada recebe pela primeira vez uma conferência sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, promovendo debates sobre sustentabilidade.

Almada recebeu ontem, 12 de maio, aquela que é já considerada uma das iniciativas mais ambiciosas da região no domínio do desenvolvimento sustentável. A 1.ª Conferência ODS — subordinada ao tema “Localizar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com ação, parcerias e impacto”

 — reuniu no Auditório Fernando Lopes Graça do Fórum Municipal Romeu Correia especialistas nacionais e internacionais, representantes de municípios de três continentes e decisores públicos empenhados em transformar compromissos globais em respostas concretas para os cidadãos.

O evento, que decorreu das 10h às 17h30, não foi um encontro meramente protocolar. Foi o palco para a apresentação pública do Relatório Voluntário Local (VLR) de Almada — um documento de prestação de contas ao país e ao mundo sobre o que o município tem feito para cumprir a Agenda 2030 das Nações Unidas — e para a assinatura do memorando do LAB ODS Almada, que formaliza parcerias com entidades nacionais e internacionais de relevo.

Uma cidade que presta contas ao mundo

O Relatório Voluntário Local é um instrumento ainda raro entre os municípios portugueses. Trata-se, em traços simples, de um compromisso público de transparência: o município expõe o que fez, o que falta fazer e de que forma as políticas locais se alinham com os 17 objetivos estabelecidos pelas Nações Unidas — da erradicação da pobreza à ação climática, passando pela educação de qualidade, pela igualdade de género e pelas cidades sustentáveis. Almada entra assim numa rede global de municípios que lideram pelo exemplo, enquadrada no movimento liderado pela ONU-Habitat.

A conferência contou com a presença de Martino Miraglia, Coordenador da equipa SDG Cities e Governança Multinível no ONU-Habitat, que viajou de Nairobi para estar presente — um sinal claro do peso que este evento ganhou nas esferas internacionais. Miraglia coordena um portefólio ativo em mais de 20 países e é um dos rostos mais influentes da localização dos ODS a nível mundial.

Almada fala, o mundo ouve

A dimensão lusófona foi um dos traços mais marcantes do programa. A Iniciativa Lusófona dos Municípios ODS (ILMO) juntou à mesa representantes de Cabo Verde — a vereadora Cesaltina Ribeiro, da Câmara Municipal de São Miguel — e do Brasil, com a presença do prefeito de Ipanema, Júlio Fontoura de Moraes Júnior, no seu quarto mandato, e de Lavito Bacarissa, Secretário Executivo da Comissão Nacional para os ODS na Secretaria-Geral da Presidência da República do Brasil. A língua partilhada foi também uma ponte para troca de experiências que raramente se encontram num único auditório.

A moderação da sessão dedicada à cooperação lusófona esteve a cargo de José Carlos Ferreira, professor associado na NOVA FCT e investigador do MARE — Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, especialista em ordenamento territorial, infraestruturas verdes e adaptação climática em zonas costeiras.

Parcerias que constroem o futuro

A tarde foi dominada pelas mesas redondas. Na que debateu as sinergias e os desafios da implementação multiescala e multissetorial dos ODS, participaram nomes de peso como Ana Salvado, coordenadora da equipa de monitorização do PLANAPP e responsável pelo 2.º Relatório Voluntário Nacional Português, e Miguel Almeida, presidente do Fundo de Apoio Municipal e uma das vozes mais reconhecidas em matéria de finanças locais sustentáveis. A estes juntou-se João Ferrão, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador da plataforma ODSlocal, iniciativa que trabalha diretamente com os municípios portugueses.

A Aliança ODS Almada — eixo estruturante da conferência — foi debatida numa mesa que reuniu figuras como Bruno Martinho, diretor-executivo do Almada Innovation District, projeto que articula a Universidade NOVA, a Egas Moniz School of Health and Science e a Santa Casa da Misericórdia de Almada; Joaquim Barbosa, provedor desta última instituição desde 2010; Paulo Gonçalves, diretor de departamento dos SMAS de Almada; e Sérgio Manso Pinheiro, diretor de planeamento dos Transportes Metropolitanos de Lisboa, que representou a mobilidade sustentável como peça central de qualquer agenda territorial séria.

Mafra e Grândola também na sala

A conferência foi também um espaço de aprendizagem entre municípios. Ana Carolina Ferreira, dirigente da Unidade de Estratégia, Inovação e Sustentabilidade de Mafra, partilhou a experiência do concelho — que liderou a elaboração do primeiro Relatório Voluntário Local português, apresentado nas Nações Unidas em 2023. Já Sílvia Gomes, técnica superior da Câmara Municipal de Grândola com mais de duas décadas de trabalho nas áreas da cultura, juventude e desenvolvimento local, representou um exemplo de como pequenos municípios podem ter uma voz ativa na concretização dos ODS, incluindo no High-Level Political Forum da ONU em Nova Iorque.

A sessão de abertura e o futuro de Almada

A sessão de abertura foi moderada pelo vereador Ivan Gonçalves, responsável pelos pelouros das Finanças, Economia, Turismo, Inovação e Smart Cities da Câmara Municipal de Almada, com um percurso que inclui oito anos como deputado à Assembleia da República e consultor do Banco Mundial. A comunicação de encerramento — “O futuro que queremos para Almada” — coube ao presidente da Assembleia Municipal, João Couvaneiro, uma figura que acumula décadas de intervenção nas áreas da educação, inovação pedagógica e tecnologia, tendo sido inclusivamente finalista do Global Teacher Prize.

No plano técnico, a arquitetura do VLR e da plataforma ODS foi explicada por Regina Pimenta, diretora do Departamento de Tecnologias de Informação, Cidades e Territórios Inteligentes da Câmara, e pelo professor Pedro das Neves, fundador da Global Solutions 4U, consultor das Nações Unidas desde 2014 e co-criador de dez Relatórios Voluntários Locais em três continentes.

O que muda para os almadenses?

A pergunta que fica no ar após uma conferência desta dimensão é sempre a mais simples: e agora? A criação do LAB ODS Almada e a formalização de parcerias com entidades nacionais e internacionais representam um passo concreto. O que está em causa não é apenas uma política de imagem — é a forma como o município planeia a habitação, a mobilidade, o ambiente, a água, o saneamento e a coesão social nas próximas décadas. Almada assumiu publicamente, perante a ONU e perante os seus parceiros, que quer ser medido por resultados.

Fica o registo de que, desta vez, o futuro foi discutido a sério — e com as pessoas certas na sala.


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