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“Achavam que as pessoas iam ficar caladas.” O que se passa no Bairro Alves Redol?

Fátima sai todos os dias de manhã para levar os três filhos à escola, que fica a poucos metros da sua casa, na mesma rua. Apesar da proximidade, desde o início do ano letivo que as crianças têm de passar por uma frente de obra onde encontram fossas e buracos não protegidos e sem sinalização, entulho de obra na via pública, terra batida em vez de alcatrão e um corredor de entrada para a escola só em gravilha.

As obras de requalificação na Escola Básica nº6 do Barreiro – que tem cerca de 150 alunos da pré-escolar ao ensino básico – estão inseridas num projeto maior, que visa renovar o espaço público em torno da escola, no Bairro Alves Redol, uma iniciativa que poderia ter sido positiva para a população se não se tivesse transformado num problema para os moradores e em particular, para as crianças, colocando fortemente em causa a sua segurança. 

A empreitada na escola começou no final do ano letivo de 2024/2025, no dia 30 de junho e está prevista durar 210 dias. Contudo, segundo Fátima Horta, o documento afixado no edifício onde vive, indicava que as obras na rua era suposto durar 75 dias úteis – tendo ultrapassado o limite deste prazo no início do mês de outubro e as obras ainda se mantêm. Tal como reportado pelo Diário do Distrito e por diversos moradores em fotografias e vídeos, as obras decorreram sempre nas piores condições possíveis, colocando em perigo moradores, alunos e trabalhadores. 

Os moradores, sobretudo pais e mães dos alunos, confessaram que se sentem “ativamente ignorados pelo poder local” e que, o presidente Frederico Rosa e os vereadores Sara Ferreira e Rui Braga (todos do PS) se desviam deste assunto sempre que são confrontados com a realidade vivida pelas famílias do bairro. Os responsáveis da autarquia socialista acusam ainda os pais e os partidos da oposição (PCP, PSD e CH) de serem “contra as obras” e que é por causa das suas reclamações as obras não avançam. 

As ruas em torno da EB 6 do Barreiro mostram um cenário de precariedade, com uma série de incumprimentos nas obras da via pública, vários equipamentos que são abandonados todos os dias no meio da rua (sobretudo retroescavadoras), casas sem acesso pedonal protegido e com buracos à porta, uma recolha do lixo deficiente e entulho da obra, que se mistura com o resto da rua onde as pessoas circulam todos os dias, como se de um relevo natural se tratasse.

Mulher passeia o cão nas traseiras do prédio que se fundem com o estaleiro da obra (Novembro de 2025) – Fotografia de Diogo Alexandre

O deputado de freguesia Nuno Silva, eleito pela Coligação Democrática Unitária (CDU) pensou em colocar a filha nesta escola, contudo, há cerca de 3 anos, com medo que a situação das obras não estivesse ainda resolvida, decidiu coloca-la noutra escola. Mesmo assim, Nuno continuou ao lado dos pais que mantiveram os filhos na EB 6, visitando recorrentemente a escola, como pai e como eleito. Foi neste contexto que nos contactou inicialmente para nos enviar fotografias e colocar a par da situação. 

Nuno cresceu neste bairro e aqui viveu durante muitos anos. Afirma que “dada a composição social do bairro, eles (executivo do PS) achavam que as pessoas iam ficar caladas”.  

Os primeiros três meses de aulas na Escola Básica nº6 do Barreiro

“No último dia de aulas chegaram as máquinas, começaram a partir e continuaram sempre, os miúdos saíram e a obra começou. Disseram-nos que ia tudo ficar pronto no início do ano letivo”, confessa Andreia Nunes, nome fictício, pediu anonimato porque, sendo a autarquia a sua “entidade patronal”, diz que teme repercussões no local de trabalho.

A auxiliar, que trabalha na escola há alguns anos, acompanhou este processo desde o início, apoiando sempre a luta dos pais. Concordou em conceder uma entrevista ao Diário do Distrito porque diz estar “farta” da situação, sobretudo da “pressão” e do “silenciamento” a que as trabalhadoras da escola, professoras e auxiliares, têm sido sujeitas. Admite que na escola “as paredes têm ouvidos” e que há uma professora que é eleita na freguesia pelo PS e que tem “abafado” sempre que existem situações que põem as crianças em perigo. 

A maioria dos pais trabalham e precisam de ter onde deixar os filhos de manhã até ao final do dia, principalmente as famílias que não têm dinheiro para pagar um ATL privado. Tal como Nuno Silva (CDU), houve outras famílias que não colocaram os filhos na EB 6 ou transferiram os filhos para outras escolas, com medo que as obras se atrasassem. 

Para estas famílias, o começo deste ano letivo acabou por marcar o início de uma luta contra a inércia da autarquia, com reuniões cara-a-cara com as chefias do PS na Câmara Municipal do Barreiro. Durante mais de dois meses as crianças tiveram de passar por cima de buracos escavados no meio da rua, por onde corria a água das chuvas, que não estavam protegidos ou sequer sinalizados. 

A maioria dos pais trabalham e precisam de ter onde deixar os filhos de manhã até ao final do dia, principalmente as famílias que não têm dinheiro para pagar um ATL privado. Houve quem transferisse os filhos para outras escolas, com medo que as obras se atrasassem. 

Para estas famílias, o começo deste ano letivo acabou por marcar o início de uma luta contra a inércia da autarquia, com reuniões cara-a-cara com as chefias do PS na Câmara Municipal do Barreiro. Durante mais de dois meses as crianças tiveram de passar por cima de buracos escavados no meio da rua, por onde corria a água das chuvas, que não estavam protegidos ou sinalizados

Quando voltaram das férias de verão, as crianças “encontraram uma escola dentro de um estaleiro”

Para entrarem na escola as crianças passam por um corredor de gravilha, espaço que constantemente partilham com os trabalhadores que o utilizam para circular de um lado ao outro da obra, tendo em conta que no interior o acesso o caminho mais rápido lhes foi vedado.

A auxiliar diz que, quando voltaram das férias de verão, as crianças encontraram “uma escola dentro de um estaleiro”, sem telhado, e com o acesso condicionado a água potável. “No início do ano só havia dois corredores de acesso aos edifícios das aulas. No recreio têm um corredor de acesso ao refeitório e um campo da bola para brincar”, explicou Andreia Nunes.

Explica que nesse período inicial os funcionários iam buscar a água das limpezas a um ponto de água no estaleiro, que é também um estacionamento da obra, onde já foi o antigo jardim da escola. Quando as aulas começaram não havia nenhum ponto de água e as 148 crianças “só podiam “beber água na casa de banho provisória, nos contentores”, mas os lavatórios eram demasiado altos. Entretanto foram criados dois pontos de água, um deles com um adaptador de mangueira de jardim no qual os alunos se abastecem.

Todo o chão onde as crianças brincam é de gravilha. Segundo Andreia Nunes, “o município deu ordens ao empreiteiro para colocar relva sintética de plástico por cima da gravilha para fazer corredores de segurança e as crianças brincarem em cima da relva, aquilo é um corredor, se as crianças caem ali, caem na mesma em cima da gravilha”.

As grades do estaleiro também são apontadas como um problema de segurança porque “em dias de vento, e chuva, as grades caem” para o único corredor de passagem das crianças“. Estão presas com cordas e cintas de segurança. Quando há vento ou chuva, tombam. É literalmente a única coisa que separa as crianças da obra.”, confessou a funcionária da escola, mostrando-se preocupada com a segurança das crianças. 

Segundo declarações do vereador Rui Braga (PS) à estação de televisão TVI, em outubro, as obras são iniciadas às 18h30 e terminam às 23h30. Neste momento, “os trabalhadores estão na obra todos os dias, desde as 8h00 até às 18h00”, explica Andreia. 

“As professoras não conseguem dar aulas com máquinas, escavadoras com rebarbadoras a cortar ferro”, diz Andreia Nunes. Uma das maiores falhas de segurança que foi apontada é que “as crianças têm acesso à obra” por não estar completamente vedada ou porque a vedação cai com o vento.

Fátima Horta é mãe de três alunos que frequentam a Escola Básica nº6. Esteve o Verão inteiro sem saber se as aulas iam prosseguir com os filhos naquela escola – os pais só foram informados de que teriam os filhos a frequentar uma escola sem um telhado colocado, uma semana antes do início das aulas. Infelizmente, para centenas de famílias que precisam daquela escola, nada ficou pronto a tempo. 

Em desespero, avisa que “se isto correr mal, não corre mal só para um dos meus filhos, eu tenho três filhos aqui dentro, corre mal para todos. Não podemos pensar que são só as crianças. As pessoas que aqui trabalham também têm uma família, também têm filhos” – denuncia as condições em que pelo menos 200 pessoas trabalham e estudam todos os dias.

A mãe explicou que se começou a mobilizar após um episódio com um dos filhos: “Caiu o projetor mesmo em cima da mesa do meu filho que, por acaso, estava fora da sala para ir buscar um material a pedido da professora”. Quando foi tentar apurar o que se tinha passado, Fátima diz que lhe confirmaram que o projetor “estava montado ao contrário” num teto bastante húmido.

A auxiliar que denunciou as condições da escola explicou-nos que “a intervenção de raiz é mentira, porque o que fizeram dentro das salas foi tirar a eletricidade velha, pôr calha técnica e pôr os cabos novos por fora, portanto, isso não é uma remodelação de raiz”, sublinha Andreia Nunes. Explica ainda que nas salas “só trocaram a iluminação e puseram os mesmos projectores e as mesmas telas que já existiam. 

“A professora do meu filho cancelou as aulas digitais porque não há internet na escola”, afirma Fátima. Para além disto, explica que durante a hora de almoço “as crianças comem em pratos de papel” que se desfazem com o calor da comida, porque não existem meios para lavar a loiça.

Continua na 2ª parte. 



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