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Abril e o caminho que abriu

Artigo de opinião de Guilherme Mira, membro da Comissão Regional de Setúbal da Juventude Comunista Portuguesa.

Foram quarenta e oito anos de repressão fascista, por parte de um Estado ao serviço dos grandes grupos económicos das finanças, indústria e latifúndios. Um regime que encontrava na vontade popular de lutar por um mundo novo, de dignidade e progresso, a subversão e o radicalismo e, no povo, os inimigos da “Nação”. Foram décadas de opressão, prisões políticas, sequestros, torturas e assassinatos que fizeram de milhares vítimas do fascismo. Foram anos de guerra, destruição, massacre e violência sobre os povos colonizados. Foi quase meio século de obscurantismo, de pobreza generalizada, de indignidade e exploração para os trabalhadores.

Mas a longa noite acabou, com a luz que trouxe Abril. O 25 de Abril de 1974, a data que mudou o rumo de Portugal, que marca a rutura revolucionária do Movimento das Forças Armadas e do povo português contra as garras do fascismo. Uma data que deu início a um processo revolucionário com a força e a mobilização dos trabalhadores, que resultou em conquistas emancipadoras para a juventude, os trabalhadores e o povo.

Do processo revolucionário deram-se os primeiros passos para o fim da guerra colonial, a descolonização e o reconhecimento da independência das colónias. Avançou-se na libertação de milhares de presos políticos, presos e torturados no Tarrafal, Peniche e Caxias e concretizou-se a extinção da PIDE/DGS. Iniciou-se a reforma agrária e a redistribuição dos grandes latifúndios pelos agricultores, cumprindo a justiça social e económica que se exigia após décadas de exploração e trabalho servil, levando pela primeira vez a que milhares de agricultores acedecessem a terras próprias. Foi criado o salário mínimo nacional e a segurança social pública e universal. Bem sabemos na nossa região de Setúbal o que significou Abril para a juventude e para os trabalhadores.

A menorização da rutura que representa o 25 de Abril de 1974 por elementos da direita e extrema-direita através da celebração “orgulhosamente só” do 25 de novembro de 1975 – uma vez que em cinquenta anos nunca foi acompanhada de mobilizações populares -, procura elevar essa data a um grau de “igual importância” ao 25 de abril.

Enquanto a juventude, os trabalhadores e o povo celebram anualmente o 25 de abril e as suas conquistas, com centenas de milhares a descer a avenida da liberdade na celebração dos 50 anos da revolução, os 50 anos do 25 de novembro foram uma vez mais “celebrados” sem qualquer expressão popular.

Não será algo peculiar que o Chega, a IL, PSD e o CDS-PP – o único partido a votar contra a consolidação das conquistas e do projeto profundamente progressista de Abril na Constituição da República Portuguesa a 2 de Abril de 1976, já depois do 25 de Novembro – estejam na linha da frente das celebrações do 25 de novembro? Como bons aliados do capital que são, rejeitam os valores de Abril, os resultados deste processo transformador, o seu potencial emancipador cada vez mais atual para a juventude, os trabalhadores e o povo.

Por isso, tentam a todo o custo diminuir o 25 de Abril, encontrando na promoção desenvergonhada do 25 de Novembro, sempre com o auxílio da comunicação social dominante, uma falsa equivalência, desprovida de significado histórico na memória colectiva.

Da nossa revolução, a que abriu as portas em Abril, nasceu a Constituição da República Portuguesa, expressão escritas das lutas do nosso povo, que aponta a construção de um mundo novo, mais digno e mais justo.

Foi neste documento, que fará em 2026 os seus 50 anos, que se consagraram as conquistas de abril. E, apesar dos sucessivos ataques por parte da política de direita aos princípios e valores nela inscritos, continuar a valer a pena lutar pela sua defesa, porque permanece um documento que afirma a nossa soberania nacional, a defesa da paz, a vontade de construir de uma sociedade livre, justa e solidária.

A revolução de Abril continua viva apesar do esforço para a abafar, por receio do que significa para o nosso povo. Por isso, sempre saímos em sua defesa e assim continuaremos. Sempre.


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