A resistência também se faz nos portos
Acompanhe o novo espaço de opinião mensal reservado às associações juvenis e juventudes partidárias. Esta semana temos um artigo de opinião de Diogo Mira, dirigente do Bloco de Esquerda na Comissão Coordenadora Distrital de Setúbal e na Comissão Concelhia de Almada.

Chegou-nos recentemente uma notícia de Itália que merece ser lida com atenção e também com esperança. Os estivadores do porto de Génova anunciaram que estão preparados para bloquear os portos se a flotilha humanitária para Gaza for interceptada. Não se trata de uma greve por melhores salários, nem de uma paralisação por condições de trabalho — é, antes de mais, um gesto de solidariedade internacionalista. Um gesto que mostra que a classe trabalhadora, quando se organiza, pode ser também um ator político relevante..
O que estes trabalhadores italianos afirmaram é simples e poderoso: não serão cúmplices do bloqueio que condena o povo palestiniano a viver numa prisão a céu aberto. Se a flotilha for atacada, se a ajuda humanitária for impedida de chegar a Gaza, estes trabalhadores estão prontos para responder com o poder que têm nas mãos — a paralisação da atividade portuária.
Em Portugal, ao ler esta notícia, não consigo evitar pensar no impacto que teria se um gesto semelhante fosse feito nos portos do nosso distrito. Setúbal conhece bem o que significa a solidariedade. O movimento operário desta região construiu-se em torno de valores de união e dignidade, fosse na Lisnave, nos estaleiros, nas fábricas de conservas ou nas lutas dos estivadores. Muitas vezes, os trabalhadores de Setúbal mostraram ao país inteiro que a luta não é só por salários, mas também por respeito, por direitos, por justiça. Este património de resistência faz parte da identidade da cidade e da região.
O gesto dos estivadores de Génova deve ser lido nesta chave: a de que o trabalho não é neutro. Aquilo que passa por um porto não é apenas carga ou mercadoria, é também responsabilidade. Se num navio segue a matéria-prima da guerra, da exploração ou da injustiça, podemos perguntar-nos: podem os trabalhadores ser cúmplices desse destino? Essa pergunta é legítima, e é corajosa.
Naturalmente, sabemos que estas decisões nunca são fáceis. Os portos estão inseridos em cadeias globais de comércio, dependem de contratos e de regras internacionais. Uma paralisação pode significar custos económicos elevados, processos disciplinares, confrontos legais. Não é um caminho simples nem imediato. Por isso mesmo, não se trata de pressionar ninguém, mas sim de abrir espaço a uma reflexão coletiva: qual é o papel dos trabalhadores portugueses neste debate? Que exemplo queremos seguir? Que valores queremos afirmar no nosso trabalho quotidiano?
A solidariedade internacional não é uma ideia abstracta. Ao longo da história, foram os trabalhadores que muitas vezes deram corpo a essa prática. Recordemos o boicote dos estivadores de Durban contra o regime do apartheid na África do Sul, quando recusaram carregar navios de mercadorias destinadas ao governo racista. Recordemos os estivadores de Marselha e de Barcelona, que tantas vezes usaram a sua força colectiva para impedir o transporte de armas destinadas a ditaduras e guerras. Recordemos ainda os exemplos em Portugal, quando greves e paralisações mostraram que a dignidade vale mais do que o lucro imediato.
O que os estivadores de Génova nos mostram é que esta tradição está viva. E o que nós, em Setúbal, podemos fazer é reconhecer a importância desse gesto e, quem sabe, inspirarmo-nos nele para pensar em novas formas de solidariedade.
O Bloco de Esquerda tem dito, de forma clara, que o bloqueio de Gaza é inaceitável e que a cumplicidade europeia com os crimes cometidos contra o povo palestiniano deve ser denunciada. Mas mais importante do que qualquer declaração partidária é a capacidade de mobilizar consciências, de envolver trabalhadores, sindicatos, associações cívicas e cidadãos comuns. A solidariedade constrói-se de baixo para cima, com participação, com diálogo, com escolhas concretas.
Por isso, quando digo que seria bom ver a mesma atitude nos portos de Sines ou de Setúbal, digo-o com esperança, como quem reconhece que a força dos trabalhadores desta região tem uma história única e pode ter, no futuro, uma relevância internacional ainda maior. Digo-o como quem acredita que o trabalho portuário não se limita a carregar navios, mas pode carregar também esperança e justiça.
O apelo que aqui deixo é simples: vamos discutir, vamos pensar juntos, valorizar a solidariedade como parte da nossa identidade colectiva. Porque os trabalhadores têm essa capacidade rara de mostrar que, quando se unem, são capazes de mudar o rumo dos acontecimentos. E porque, no fundo, como nos ensinam os estivadores de Génova, a justiça também se constrói no cais de um porto.
Setúbal sabe-o bem. Não há liberdade sem solidariedade.
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