Opinião

“A pobreza que não se mede em euros”

A pobreza que limita acesso ao património cultural.

Em Monsaraz vi crianças correrem entre muralhas com mais de setecentos anos como se fossem apenas pedras.

Não é culpa delas.

Ninguém nasce a olhar para um castelo e a imaginar cercos, reis ou fronteiras. Ninguém nasce a olhar para um monumento megalítico e a perguntar porque razão alguém decidiu erguer pedras de várias toneladas há cinco mil anos. É preciso que alguém lhes conte essas histórias.

Dias depois ouvi outra criança dizer que nunca fazia programas culturais com a mãe porque “isso custa muito dinheiro”.

A frase ficou comigo.

É verdade que há famílias para quem a palavra “escolha” quase deixou de existir. Famílias que fazem contas para pagar a renda, a água e o gás. Que entram no supermercado com uma calculadora na mão. Que planeiam as refeições da semana porque o orçamento não permite improvisos. Essa é a pobreza verdadeira. A que limita a liberdade, rouba a tranquilidade e obriga a escolher entre necessidades básicas. E essa merece toda a nossa solidariedade, nunca julgamento.

Mas será mesmo essa a principal razão pela qual tantas crianças crescem sem conhecer o património do país onde vivem?

Tenho dúvidas.

Portugal oferece muito mais oportunidades do que imaginamos. Os museus e monumentos nacionais têm entrada gratuita para residentes em 52 dias por ano. Muitos monumentos municipais cobram pouco mais do que um valor simbólico. O Cartão Ciência Viva permite visitar, durante um ano inteiro e sem limite de entradas, dezenas de centros de ciência. Bibliotecas organizam atividades gratuitas. As autarquias promovem visitas guiadas. Igrejas, centros históricos, muralhas, aquedutos, fortalezas e ruínas podem ser descobertos sem pagar um único euro.

E, muitas vezes, basta caminhar.

Subir ao Castelo de Palmela e imaginar quem vigiava o estuário há séculos. Percorrer as ruas de Monsaraz e pensar como seria viver dentro daquelas muralhas. Descobrir os vestígios romanos de Évora. Entrar numa igreja manuelina e reparar que as colunas parecem cordas esculpidas em pedra. Visitar um centro Ciência Viva. Ou parar diante de um menir perdido no Alentejo e perguntar simplesmente: “Quem o colocou aqui? E porquê?”

Nenhuma destas experiências exige grandes recursos económicos.

Exigem outra coisa.

Curiosidade.

E talvez seja precisamente essa a riqueza que começa a faltar.

Vivemos na época em que mais informação circula na História da humanidade. Nunca foi tão fácil encontrar respostas. Em poucos segundos, uma criança pode descobrir quantos anéis tem Saturno, quem venceu um campeonato do outro lado do mundo ou qual é a música mais ouvida da semana.

Mas informação não é cultura.

A informação chega-nos aos pedaços, em vídeos de trinta segundos, em curiosidades sem contexto, em respostas instantâneas. A cultura exige tempo. Exige contexto. Exige perguntas. Explica porque existe um castelo antes de o visitar, porque os romanos construíram um aqueduto, porque povos pré-históricos ergueram monumentos megalíticos muito antes de existir a escrita.

Talvez por isso tantas crianças conheçam dezenas de influenciadores digitais, mas nunca tenham ouvido falar de D. João II. Reconheçam marcas internacionais, mas não saibam porque Guimarães é conhecida como o berço de Portugal. Saibam o nome de personagens fictícias, mas nunca tenham entrado num castelo da sua região.

Não lhes falta inteligência.

Falta-lhes contacto.

E esse contacto depende muito menos do dinheiro do que imaginamos.

Depende de um adulto que decide trocar uma tarde no centro comercial por uma caminhada entre muralhas. Que entra num museu sem esperar que tudo seja um espetáculo. Que responde “não sei” e transforma essa resposta numa pesquisa feita em conjunto. Que ensina que a História não está apenas nos livros; está debaixo dos nossos pés.

Há uma pobreza que esvazia a carteira.

Mas existe outra que esvazia a memória. Que nos faz passar por um castelo sem levantar os olhos, por uma igreja sem reparar na sua arte, por um monumento sem querer saber quem o construiu. Uma pobreza que nos faz acreditar que a cultura é um luxo, quando ela é, antes de tudo, uma forma de compreender quem somos.

Essa pobreza não se mede em euros.

Mede-se na capacidade de nos espantarmos com o mundo e de ensinar esse espanto aos nossos filhos.

Porque um país não perde o seu património quando uma muralha cai ou um monumento se degrada.

Perde-o quando a geração seguinte deixa de lhe encontrar significado.

Talvez o património mais importante que deixamos aos nossos filhos não sejam as casas nem as contas bancárias.

Talvez seja a capacidade de olhar para uma pedra antiga e perceber que ela ainda tem uma história para contar.


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