A Liberdade Tem Rosto de Mulher
As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor.

Abril devolveu-nos direitos fundamentais.
Deu-nos o direito de falar sem medo.
De pensar livremente.
De votar.
De participar.
De escolher o caminho coletivo do nosso país.
Mas quando falamos de abril, devemos também lembrar que essa liberdade teve um significado muito particular para as mulheres portuguesas.
Eu nasci em Setúbal, na Rua da Brasileira. Onde também nasceu Luísa de Aguiar Todi.
Gosto de lembrar uma história muito simples da minha vida. A minha avó América não sabia escrever o próprio nome. Como tantas mulheres da sua geração, não teve oportunidade de ir à escola. A vida dela foi feita de trabalho na indústria conserveira, de sacrifício e de cuidar dos seus.
Mas foi com ela que fui à minha primeira manifestação do 1.º de Maio.
De mão dada.
Porque a liberdade que celebramos hoje também pertence a essas mulheres simples.
As mulheres da indústria conserveira.
Mulheres que entravam nas fábricas ainda antes de o sol nascer.
As costureiras de Setúbal como a minha mãe Lurdes.
As mulheres do mar, que conheciam bem o peso da espera.
As mulheres do campo, em terras como Azeitão, no sado ou em gambia, tantas mulheres que trabalharam nas vinhas, nas adegas e nas queijarias, ajudando a construir a identidade do vinho e do queijo da nossa região, com um trabalho duro que raramente era reconhecido.
As mulheres do ensino, as professoras, muitas não podiam sequer viajar ou tomar decisões sobre a sua própria vida sem autorização do marido.
Quantas mulheres não choraram a perda dos seus na guerra colonial?
Durante décadas, às mulheres portuguesas foi pedido silêncio.
Silêncio na sociedade.
Silêncio na política.
Silêncio nas decisões que moldavam o país.
E então chegou o 25 de Abril.
Abril trouxe liberdade.
Trouxe direitos.
Trouxe democracia.
E trouxe algo fundamental: a possibilidade de todos os cidadãos participarem na vida pública.
Antes de 1974, a política era um espaço fechado. Os cidadãos não podiam organizar-se livremente, criar movimentos independentes
Um movimento de cidadãos como o Setúbal de Volta, por exemplo, não teria sido possível antes de Abril.
E isso é uma das maiores conquistas de Abril.
Mulheres que talvez nunca tenham falado numa tribuna como esta, mas que abriram caminho para que hoje eu possa estar aqui
Mulheres que resistiram.
Mulheres que trabalharam sem descanso.
Mulheres que souberam esperar.
Mulheres que nunca desistiram.
Se hoje Setúbal tem uma mulher à frente da sua Câmara Municipal, isso também é uma conquista de Abril e do longo caminho que tantas mulheres ajudaram a abrir.
Viva Setúbal! Viva Portugal! Viva o 25 de Abril!
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