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À conversa com Gil Mendes da Costa: do YouTube ao primeiro livro

Criador do canal General Knowledge e autor de "Os Países que Quase Existiram", Gil Mendes da Costa conversa com o Diário do Distrito sobre a curiosidade que o acompanha desde criança, o processo de escrita do primeiro livro e a forma como a História continua a surpreendê-lo...tudo isto num tom muito humano e humilde, tal como é a pessoa por detrás do autor.

Gil Mendes da Costa em entrevista ao Diário do Distrito

Durante anos, Gil Mendes da Costa habituou milhares de pessoas a olhar para os mapas de outra forma. No canal General Knowledge, transformou episódios pouco conhecidos da História e da Geografia em vídeos seguidos por quase 940 mil pessoas e com milhões de visualizações acumuladas. Agora, essas curiosidades chegaram igualmente às livrarias, com a publicação do livro Os Países que Quase Existiram (e Mais de 100 Curiosidades da História e Geografia).

Nesta conversa com o Diário do Distrito, num formato de capítulos em “homenagem” ao primeiro livro do próprio Gil, o autor fala acerca da infância, da influência da família, do livro que sempre quis escrever, da responsabilidade de divulgar conhecimento e da vontade de continuar a aprender, até porque, para quem faz da curiosidade uma profissão, há sempre mais uma pergunta por responder.

CAPÍTULO I

Onde nasce a curiosidade?

Antes do canal de YouTube, das redes sociais ou do primeiro livro, já existia uma curiosidade difícil de explicar para o autor Gil Mendes da Costa. Era ela que o fazia perder-se a olhar para mapas durante as aulas e procurar respostas para perguntas que poucos pareciam fazer e o resto, portanto, acabou por surgir de forma natural.

Se hoje desaparecessem o canal, as redes sociais e o livro, quem continuaria a ser o Gil Mendes da Costa?

Uma pessoa fascinada pela História, com curiosidade para aprender novas coisas que permitam compreender melhor o passado.

Qual é a primeira memória que tens de olhar para um mapa e pensar: “Há qualquer coisa aqui que eu quero perceber melhor”?

Lembro-me bem de me perder durante as aulas, na escola, a folhear os manuais de História e olhar para os mapas. Provavelmente foi aí.

Poucos sabem isto, mas houve uma altura em que chegaste a estar bem ligado ao mundo do rap. Como é que passaste desse universo para uma licenciatura em Relações Públicas e Comunicação Empresarial, na ESCS, e depois para a escrita de um livro? Imaginavas-te a fazer exatamente o que fazes hoje ou isto aconteceu “por acaso”?

Acho que aconteceu por acaso, mas foi, no fundo, uma sucessão de interesses diferentes. Talvez a música tenha sido mais um fascínio de adolescência que me deixou à medida que cresci. A comunicação mantém-se de alguma forma ligada a tudo, já que comunico estas curiosidades através do livro. O interesse em História e Geografia tem estado sempre presente desde que era uma criança – talvez seja o elemento mais permanente.

Gil Mendes da Costa no evento de apresentação oficial, juntamente com Marco Neves a apresentar e a presença da editora do livro. Foto: Contraponto.

CAPÍTULO II

Quando a História levanta mais perguntas do que respostas

A curiosidade que começou nos mapas nunca ficou limitada às fronteiras. Ao longo dos anos, Gil descobriu que estudar História e Geografia é aceitar que as respostas nem sempre são definitivas e que, muitas vezes, uma nova descoberta obriga, pois, a olhar para o passado de outra forma.

Há pessoas que passam pela História. Tu parece que a persegues. Ainda consegues ser surpreendido ou a curiosidade já se tornou um hábito?

Continuo a ser surpreendido! Parecem existir casos infindáveis para descobrir e, cada vez que faço pesquisa para um novo vídeo, descubro mais alguma coisa que me fascina. Por exemplo, o mais recente foi descobrir como a cidade de Bruges, na Bélgica, foi o local de origem do conceito da bolsa de mercado e que tudo aconteceu por uma coincidência natural, quando uma tempestade abriu um canal que permitiu ligar a cidade ao Mar do Norte e ao comércio global da época.

Quanto mais estudas História e Geografia, mais percebes que quase tudo é mais complexo do que parece. Isso tornou-te que tipo de pessoa?

Acho que uma pessoa mais cética em alguns casos, mas também uma pessoa mais compreensiva e mais relaxada. Aprender sobre vários momentos dramáticos da História coloca a nossa própria existência em perspetiva. Penso muitas vezes: ‘Se uma pessoa do século X aguentou tudo isto e sobreviveu, mantendo-se feliz, certamente que nós também conseguiremos.’

Houve alguma descoberta que te obrigou a admitir que estavas completamente enganado?

Sim! Quando aprendi sobre a história das bandeiras enquanto conceito, percebi que estas não tinham a origem europeia que eu achava. Surgem primeiro na Ásia e no Médio Oriente, passando depois para a Europa, onde se juntam à nossa tradição heráldica de brasões e escudos de armas. À Europa pertence a sua divulgação pelo resto do mundo e a sua estandardização em termos de aspeto e formato, mas a origem é diferente daquilo que eu pensava.

O livro. Imagem: Contraponto.

CAPÍTULO III

Quando um vídeo deixou de ser suficiente

Durante vários anos, Gil Mendes da Costa contou histórias em formato de vídeo. Mas houve um momento em que algumas dessas curiosidades deixaram de caber num guião de poucos minutos. A ideia de reunir esse conhecimento num livro começou a ganhar forma naturalmente, até se transformar em Os Países que Quase Existiram.

Em que momento deixaste de pensar “isto dava um vídeo” e começaste a pensar “isto merece um livro”?

Talvez à medida que os vídeos se acumulavam. Cada vez que escrevia um guião novo pensava: ‘Isto podia ser um capítulo de um livro que aglomerasse todas estas curiosidades.’ E agora foi!

O que é que o papel te permitiu fazer que o YouTube nunca permitirá?

Em primeiro lugar, permitiu juntar conteúdo. Se publicasse um vídeo com tanta informação, creio que ninguém o iria ver, por ser demasiado longo e demasiado difuso em termos de assuntos. Mas, acima de tudo, permite a longevidade da divulgação desse conteúdo. O YouTube é uma boa plataforma, que eu gosto muito de utilizar, mas é finito. Amanhã pode aparecer uma nova que ‘roube’ toda a audiência. As regras da plataforma também podem mudar e deixar de permitir o meu tipo de conteúdo. Um livro dura para sempre. É o meio de comunicação com maior longevidade e não está sujeito a ser substituído pela próxima inovação tecnológica.

Houve alguma história fantástica que tiveste de deixar de fora porque simplesmente não havia espaço?

Sim! A história de como um guerreiro viking, no século XII, conquistou uma grande vitória numa guerra mas que, pouco depois, foi derrotado pela própria arrogância. É uma daquelas histórias que parece inventada. Depois de vencer o rival em combate, recolheu a cabeça do adversário e colocou-a no cavalo como troféu. Durante a viagem de regresso ao seu território, os dentes do inimigo arranharam-lhe a perna, provocando uma infeção que acabaria por lhe custar a vida.

Se eu abrisse o manuscrito original, encontrava muitas mais páginas riscadas e/ou apagadas?

Sim, encontravas! Principalmente no primeiro capítulo, dedicado às bandeiras (o tema que mais me interessa). Aí poderia haver talvez o dobro do número de páginas.

Gil num dos seus vídeos. Imagem: Reprodução do canal de YouTube “General Knowledge”.

CAPÍTULO IV

Muito para lá dos mapas

Até aqui, a conversa centrou-se na História, na Geografia e no livro. Contudo, por detrás do autor e do criador de conteúdos, está também a pessoa. A escrita trouxe novas descobertas, recordou a influência da família e revelou que, mesmo quando se trabalha naquilo de que se gosta, há sempre receios que acompanham igualmente o percurso.

Qual foi o dia mais difícil durante a escrita?

Não houve nenhum particularmente difícil, sinceramente. Tive muita sorte de estar a escrever sobre um tema que adoro.

O teu pai, infelizmente, faleceu ainda durante a pandemia. Se ele pudesse ver este livro nas tuas mãos, o que gostavas que ele te dissesse?

Era a pessoa com quem mais partilhava curiosidades no dia a dia e, talvez, a mais responsável por me incutir esse gosto de as descobrir e explorar. Espero que gostasse de o ler e me dissesse que descobriu algumas histórias novas que ainda não conhecia.

O que descobriste sobre ti próprio durante este processo que não estavas à espera de descobrir?

Talvez que gosto de escrever. Nunca tinha adorado fazê-lo no passado. Penso que o facto de o livro não ser uma história inventada ou uma narrativa que eu próprio tivesse de desenvolver, com personagens e outros elementos, facilitou esse processo. Gosto de descobrir a forma mais simples e apelativa de apresentar um facto a alguém, e esse foi um desafio de que gostei bastante.

À medida que foste ultrapassando determinados patamares até chegares onde estás agora, houve algum medo que cresceu contigo e que nunca desapareceu?

Não diria um medo, mas tenho sempre algum receio de ter de deixar de trabalhar numa área de que gosto, como tenho o privilégio de fazer agora. Mas, mesmo que isso aconteça, reconforta-me o pensamento de que poderei sempre continuar a explorar curiosidades, nem que seja apenas como passatempo.

Gil com os pais. Foto: Gil Mendes da Costa.

CAPÍTULO V

O dia em que o livro chegou aos leitores

Depois de muitos meses de pesquisa e escrita, chegou então o momento de apresentar o livro ao público. A partir daí, a obra deixou de pertencer apenas ao autor para passar também para as mãos dos leitores. Entre a apresentação oficial, os primeiros autógrafos e o regresso a casa, ficaram assim várias emoções no ar.

Na apresentação oficial do livro, como é que te sentiste? Houve um instante em que olhaste para a sala, para todos nós, e pensaste: “Isto está mesmo a acontecer”?

Sim! Foi muito bonito e especial para mim poder contar com a presença de vários amigos e familiares num momento como este.

Quando autografaste o primeiro exemplar, sentiste mais orgulho, responsabilidade ou alívio?

Talvez alívio. Significou que a escrita estava completa e que todo o processo de produção do livro também tinha chegado ao fim.

Quando chegaste a casa, depois de tudo terminar e finalmente fechaste a porta, qual foi o primeiro pensamento que tiveste?

Novamente, um pouco de alívio. Fiquei muito feliz por tudo ter corrido bem e por aquele momento marcar o início oficial da publicação do livro.

CAPÍTULO VI

O que fica depois da última página?

O primeiro livro está publicado, mas a curiosidade que lhe deu origem continua intacta. Antes das perguntas rápidas, a conversa termina com um olhar para o futuro, para a família e para aquilo que Gil Mendes da Costa espera nunca perder, independentemente do caminho que terá pela frente.

Se daqui a dez anos olhares para este primeiro livro, o que esperas sentir?

Uma boa memória de o escrever e de o ter partilhado com amigos e família.

Casaste recentemente e a Mia conheceu-te antes deste livro existir. O que é que achas que a tua esposa viu nascer em ti durante todo este processo?

Talvez um interesse ainda mais intenso por estes temas. Ela tem muita paciência comigo, até porque passo muito tempo a partilhar factos que, para mim, são fascinantes, mas para ela nem tanto.

O que gostavas que nunca mudasse em ti, mesmo que tenhas muito sucesso?

Acho que é sempre importante termos noção da nossa sorte e do nosso privilégio. O facto do canal de YouTube ter corrido bem até agora e disso ter resultado na publicação de um livro é consequência da sorte que tive em crescer num ambiente familiar bom, que incentivava a aprender e a partilhar curiosidades. Consegui criar conteúdo para o canal, porque os meus pais me deram a possibilidade de continuar a viver com eles durante a faculdade e o mestrado, sem ter de procurar imediatamente um trabalho mais ‘tradicional’. Espero nunca perder a noção de que tudo aquilo que possa alcançar não acontece apenas por causa do meu trabalho, mas também por causa do trabalho e da existência de todos os que fazem parte da minha vida.

Enquanto escrevias este livro, todos descobriram um novo lado teu. Qual foi o lado do Gil Mendes da Costa que só tu descobriste?

Um lado mais paciente com a pesquisa. Durante a faculdade – mesmo quando escrevia a tese de mestrado – nunca tive muita paciência para essa parte. Mas, quando os temas são verdadeiramente interessantes para nós, tudo se torna muito mais fácil.

Imagina que estamos em 2060. Entras numa biblioteca e vês um adolescente a folhear um exemplar gasto de Os Países que Quase Existiram. Ele não faz ideia de quem tu és e apenas pegou no livro por curiosidade. O que gostavas que mudasse nele quando fechasse a última página?

Creio que o melhor resultado possível seria despertar nele a vontade de aprender mais sobre História. Além disso, também que percebesse que ela está repleta de episódios estranhos que mostram que os nossos antepassados eram igualmente humanos como nós, cometeram erros, fizeram escolhas arbitrárias e que é tudo isso que define a realidade em que vivemos hoje.

O autor junto com a sua esposa Mia. Foto: Gil Mendes da Costa.

Últimas Coordenadas com o Gil

Um país subestimado: Guiana-Essequibo! Ou qualquer uma das antigas Guianas coloniais na América do Sul. Passam muito despercebidas por não serem os típicos países sul-americanos, mas são fascinantes e têm uma história incrível.

Um mapa que nunca te cansas de olhar: O mapa-mundo de Piri Reis, um dos primeiros do seu tipo.

Um livro que toda a gente devia ler: A Morte da Democracia, de Benjamin Carter-Hett.

Uma fronteira fascinante: Baarle-Hertog, uma das fronteiras entre a Bélgica e os Países Baixos, que existe em forma de ‘manta de retalhos’ dentro de uma cidade, com algumas casas a pertencerem a um país e outras ao outro.

Um mito histórico que gostavas de ver desaparecer: A ideia de que continua a ser um mistério perceber como foram construídas as pirâmides do Egito. São estruturas relativamente simples de construir com os métodos da época e com milhares de trabalhadores escravizados.

Uma curiosidade que nunca falha num jantar entre amigos: A existência da República de Piratas de Nassau.

Se pudesses estar cinco minutos à conversa com uma figura histórica, quem escolherias: O Papa Leão I. É uma figura que protagoniza um dos grandes mistérios da História. Em 452 d.C., reuniu-se com Átila, o Huno, que estava a invadir a Europa. Depois desse encontro, Átila recuou e abandonou a invasão. Alguns historiadores defendem que a reunião foi apenas uma formalidade e que não foi Leão I quem o convenceu a parar. Porém, adorava perguntar-lhe o que realmente aconteceu naquela conversa.

Escrever de manhã ou de madrugada: De manhã.

Papel ou ecrã: Papel.

Biblioteca ou museu: Depende. Se for uma biblioteca antiga, biblioteca. Mas há museus incríveis, como o Museu da Marinha, em Lisboa.

Se só pudesses ter um “superpoder”, qual seria: Viajar no tempo para poder visitar todos os locais que menciono no livro, em diferentes períodos da História.


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