AlmadaCultura

A Banda Filarmónica da Incrível Almadense: Educação, Resistência e Música desde 1848

Esta é a segunda parte de uma reportagem sobre a instituição que ajudou a moldar a identidade da cidade.

A Banda Filarmónica da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense nasce ao mesmo tempo que a coletividade, em 1848, sendo a sua génese e razão de existir. Fundada pelos mesmos cinco jovens músicos que fundaram a Incrível, mantém uma característica rara: toca ininterruptamente há mais de 170 anos, atravessando regimes políticos, crises económicas e transformações sociais.

Para quem encontra na música uma forma de vida a Incrível é uma porta aberta: “eu comecei com o saxofone em casa sozinho, meti o saxofone dentro do guarda-fato, para não fazer barulho. Acabei por andar à procura e vim ter aqui, à Incrível, e fui sempre muito bem recebido desde o início”, conta Paulo Sousa, atual executante da Banda. 

Desde cedo, a banda assumiu uma postura irreverente e resistente. No século XIX, enfrentou tentativas de boicote por parte das elites locais, que chegaram a ameaçar músicos com despedimentos para os afastar da Incrível, mas, a banda, nunca cedeu.

Hoje, a banda continua a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento cultural e educativo de Almada. Através da sua Escola de Música, promove o acesso ao ensino musical a preços acessíveis, disponibilizando instrumentos, professores altamente qualificados — muitos deles músicos da Sinfónica da GNR — e uma relação de proximidade rara entre alunos e docentes.

“Uma escola de música dá à comunidade a oportunidade de aprender música, de ter acesso à cultura, de uma forma menos despendiosa”, afirma Fernando Viana, Presidente da Direção da Incrível Almadense.

“A banda de Incrível Almadense tem a escola, faz intercâmbios com escolas para levar a música às escolas nas camadas mais jovens e incentivar, neste caso, os mais jovens a entrarem para o mundo da música”, explica Paulo Sousa, executante da Banda. 

A banda desenvolve intercâmbios com escolas, e iniciativas direcionadas às camadas mais jovens, tentando captar crianças antes que se afastem da cultura. Durante a pandemia, a escola passou de 2 para 18 alunos, graças a aulas online e a uma forte capacidade de adaptação.

“A Incrível, como todas as outras outras associações, sempre teve um papel muito grande na cultura. Sempre teve o teatro, como teve a música e então, acabando isto, deixa de haver aquela ligação com o povo”, sublinha Paulo Sousa. 

Mais do que concertos, a banda representa uma família, um espaço de acolhimento e crescimento pessoal. Para muitos jovens, foi o primeiro contacto com a música; para outros, um caminho de vida. Num contexto em que o acesso à cultura é cada vez mais desigual, a Banda Filarmónica da Incrível Almadense continua a cumprir a sua missão: levar a música às pessoas e manter viva uma das mais antigas tradições culturais de Almada.

“A Incrível, quando surgiu, levou a cultura às pessoas. Não havendo isso a cultura também não chega mais perto das pessoas que mais a necessitam ou que não conseguem ir ter com ela de outra maneira. É uma forma mais próxima de fazer chegar a cultura às pessoas.”

Para Paulo, a Incrível destaca-se pela forma como ensina música. “Há uma grande facilidade na questão de aprendizagem, a proximidade que existe entre o professor e o aluno é muito grande. Conheço vários professores da escola e não vejo, como noutros sítios, aquela frieza entre o professor e o aluno sem a proximidade de ensinar, de mostrar como é que se faz as coisas. Aqui há uma proximidade grande, as pessoas são muito afáveis, são colorosas, gostam de ensinar. 

Fernando explica o impacto das aulas de música através do Projeto Borboleta, na escola Rogério Ribeiro. “Esse projeto durou dois anos e era apoiado pela União de Freguesias de Almada. Era um projeto que trazia uma mais-valia”, explica ao referir que muitas das crianças na escola vêm de famílias mais carenciadas financeiramente. “Mesmo que a coletividade faça o seu papel social, perante a comunidade, é muito difícil para esses jovens virem para a escola de música, mesmo com a instituição a facultar o instrumento”.

Acrescenta ainda que com o projeto “as instituições de poder local do concelho sentiram que havia importância”. Um dos impactos mais concretos é no aproveitamento escolar dos jovens que aumentaram as notas. “Tenho vários alunos que elevaram as notas desde que entraram, por exemplo, da nota 13 para o 18 ou 19”.

Contudo, apesar do sucesso do projeto, Fernando explica que “não é fácil o acesso às escolas para ensinar música”. Por isso, a associação tem também um papel social, nomeadamente para tornar as aulas de música acessíveis a todos. “Nós temos valores na escola de música extremamente baixos em comparação com escolas profissionais”. “Nós facultamos o instrumento, muitas das vezes de milhares de euros”.

“As instituições centenárias têm esse papel porque está na génese da coletividade. Estamos a fazer este trabalho que é um trabalho social”, explica Fernando Viana.

“O valor que cobramos para o ensino musical facilita uma sociedade já debilitada financeiramente, mas nós não podemos fazer mais do que o que conseguimos. Estamos a pôr dinheiro do nosso bolso na Incrível para compensar o que falta, que o professor normalmente recebe, e é um encargo financeiro enorme. É um trabalho social”.

Outro exemplo desse papel social aconteceu quando “em plena pandemia, passamos de 2 alunos para 18, com o professor, o maestro na altura, a fazer aulas online”.

Fernando explica também que, por vezes, existe um preconceito na sociedade de que se o ensino tem preços acessíveis, não tem qualidade. “Por exemplo, a Sara (aluna) ao fim de um ano e meio de aulas já estava a tocar na banda e a fazer um solo. É um ensino de qualidade, a gente pode associar ´35 euros, é uma coletividade, não tem qualidade´ e vai para os conservatórios. Nem sempre o caro é bom”. “A cultura é ter também preços acessíveis”, afirma Fernando. 

Apesar da qualidade reconhecida, a banda faz uma gestão financeira muito rigorosa para se manter, dado os grandes custos, nomeadamente com os instrumentos. “Há relativamente pouco tempo gastámos quase 900 euros no arranjo de uma trompa de harmonia”.

Com mais de um século e meio de história, a Banda Filarmónica da Incrível Almadense continua a cumprir a sua missão original: levar a música às pessoas, formar cidadãos e garantir que a cultura chega também a quem mais precisa dela. Uma continuidade  que prova que a cultura, quando é próxima, transforma vidas.


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