Cultura

“A arte é sempre maior que a própria pessoa que a produz” — Ana Pérez-Quiroga, realizadora de ¿DE QUÉ CASA ERES?, sobre a “vida maravilhosa” da mãe na União Soviética

No documentário ¿DE QUÉ CASA ERES?, Ana Pérez-Quiroga, artista visual, performer e investigadora, faz uma homenagem a Angelita Pérez, sua mãe, e às 3.000 crianças espanholas exiladas na União Soviética durante a Guerra Civil Espanhola. O documentário viaja entre países e culturas, questiona a ideia de identidade e conta a história de Angelita, licenciada e médica em Moscovo, num tempo em que as mulheres não tinham sequer direito ao voto em Portugal.

Para Ana Pérez-Quiroga, a história da mãe, Angelita Pérez, foi uma presença constante em fotografias, canções russas e uma sensação persistente de diferença. “Eu conheço esta história desde que tenho memória”, recorda a artista visual, ao falar sobre o documentário ¿DE QUÉ CASA ERES? 

Em 1936 começa a Guerra Civil Espanhola. Nos anos que se seguem, milhares de pais e mães têm de fazer uma escolha: enviar os filhos para fora do país ou arriscar vê-los morrer na guerra.

Angelita Pérez, nascida no País Basco, em Bilbau, foi enviada para a União Soviética com apenas quatro anos, juntamente com a irmã de cinco anos. Foram duas das três mil crianças exiladas na União Soviética (URSS) durante a Guerra Civil Espanhola, que culminou na ditadura fascista do general Francisco Franco. 

Dos 4 aos 24 anos, viveu em vários internatos russos até concluir os estudos de medicina em Moscovo. Em 1956 regressa a Espanha, casa com um médico português, obtém nacionalidade portuguesa e vem para Portugal, onde os filhos nasceram e onde vive até hoje. 

Ainda na URSS, Angelita Pérez vive a II Guerra Mundial, o que a obrigou a mudar várias vezes de cidade. Nas duas décadas que lá viveu, passou por vários territórios que hoje pertencem à Ucrânia e à Rússia, passando também perto da Sibéria. 

Angelita Pérez

Ana Pérez-Quiroga cresceu entre referências culturais nada semelhantes à cultura conservadora portuguesa do Estado Novo. A mãe cantava-lhe canções russas e espanholas, falava com um sotaque próprio e carregava consigo uma vivência completamente diferente das famílias portuguesas que a rodeavam. “Eu percebia que a minha mãe era uma pessoa diferente. E eu própria também era diferente”, afirma.

Entre vários países e culturas, o filme gira à volta de uma pergunta, num diálogo entre mãe e filha: “¿De qué casa eres?” (“De que casa és?”).

Apesar do fascínio por esta história, Ana demorou anos até conseguir tratá-la artisticamente. Quando estudava em Belas Artes, pediu à mãe autorização para trabalhar a história. A resposta foi não. “Ela dizia-me: ‘a história é minha’. Não queria tornar-se um sujeito histórico.” Esse limite levou-a a procurar outros caminhos criativos e desenvolveu temas ligados ao feminismo e sempre numa “fusão arte-vida”.

Foi convencendo a mãe “aos bocadinhos” e em 2017 começou realmente a trabalhar o tema que viria a dar origem ao documentário: gravar canções cantadas pela mãe, trabalhar objetos trazidos da União Soviética. “Foi como se eu tivesse provado que conseguia falar dela sem a expor de uma forma que ela não queria.”

Ana Pérez-Quiroga lembra em particular “a fotografia na moldura, em cima da mesa, ao lado de uma jarra de flores frescas: uma imagem a preto e branco com crianças espanholas vestidas como marinheiros, sentadas em três filas”. 

Na primeira fila, a contar da esquerda para a direita, a terceira criança é Angelita Pérez, e a segunda, a irmã. O sonho de Ana, conta, sempre foi viver dentro daquela imagem.

A memória e a identidade acompanham todo o filme. As conversas entre mãe e filha acompanham o ritmo de Angelita, que vai contando a sua história entre poucas palavras. 

Ana explica que a mãe nunca passou aos filhos qualquer sentimento de trauma, muito pelo contrário, a artista sempre olhou para aquela história de vida como “uma aventura extraordinária”. 

“Ela teve toda uma vida maravilhosa. Ir todos os fins de semana à ópera, ou ao ballet, ou ao teatro, ou andar nas montanhas”, conta Ana. “Imagina, está a contar-me histórias de quando tinha 8 anos, 9 anos, 10 anos, 15 anos, e eu a acompanhar ao mesmo tempo e a pensar: então, isso é a idade que eu tenho agora. A minha vida não é essa coisa tão extraordinária”. 

Angelita trouxe da União Soviética uma experiência de emancipação feminina muito diferente daquela que encontrou na Península Ibérica dos anos 50.

“Estas mulheres trabalhavam, divorciavam-se, tinham independência económica. Depois chegam a Espanha e Portugal e não há liberdade nenhuma”, explica Ana.

Angelita, médica na União Soviética, não teve o diploma reconhecido em Espanha nem em Portugal. Decidida a praticar medicina e ser independente, repetiu todos os exames para ter um diploma válido. O mesmo aconteceu em Portugal, com o acréscimo de ter de aprender a falar português.

“Eu acho que o grande ensinamento daquela cultura soviética era a independência”, afirma.

Esse ensinamento marcou profundamente a própria artista. “A minha mãe sempre me disse: tens de fazer tudo para seres autónoma.”

De que casa és?

No centro do documentário está também uma reflexão sobre identidade. Ana questiona: a quem se pertence depois de tantos périplos?  

“O horror que é quando toda a vida disseram a estas pessoas que eles não são russos, são espanhóis e vão voltar para o seu país e chegam ao seu país… Não são espanhóis, são russos”.

Volta a Espanha com 24 anos e licenciada e não encontra apenas um país em que as mulheres não são plenamente livres. Encontra também uma família que não conhecia realmente. Em diálogo com a filha, no documentário, Angelita refere que sentia que a mãe lhe dava um tratamento diferente do que dava aos outros filhos que não saíram do país.

Ao longo da conversa, Ana assume a ideia de que ninguém pertence apenas a uma identidade. “Somos uma fusão de muitas coisas”, diz. Recorda até as recentes declarações de astronautas da missão Artemis sobre a visão da Terra a partir do espaço: “O planeta é lindo e não tem fronteiras.”

Um filme expandido

A realizadora descreve o documentário como um “filme expandido”.

“Não me interessava só a entrevista da minha mãe. Precisava de explicar como uma história destas pode ampliar-se e tornar-se um objeto não só artístico, porque é um filme, mas um objeto artístico porque transvasa e cria outros acontecimentos”, explica.

Ana Pérez-Quiroga

A artista utilizou vários mecanismos da arte contemporânea no filme para contar a história.

“Vemos no princípio do filme uma exposição com estes objetos artísticos que eu fui produzindo a partir dos acontecimentos da história da minha mãe, mas que eu própria já estou a reinterpretar. Estas peças, obras, enfim, de arte, diríamos, foram montadas todas num estúdio para serem filmadas para o filme”.

No filme aparecem diversas peças: um néon com a pergunta “¿De que casa eres?”, canções russas, objetos trazidos da União Soviética, desenhos, tecidos bordados e fotografias ampliadas até ultrapassarem a escala humana.

“Aquilo tudo foi pensado para uma narrativa que tinha um princípio, um meio e um fim, mas era eu que dirigia a partir da câmara. Começa logo pelo neon, depois passa para a fotografia, depois o símbolo enorme vermelho que diz “Arquivo” em russo. Tem as crianças que levam aqueles hexágonos brancos com o número, e dizem para onde é que vão. Expedição à URSS”

As fotografias são um dos elementos essenciais do documentário. “De todos os objetos que a minha mãe trouxe, escolhi 38 e fotografei; depois de os fotografar, desenhei-os, pedi à minha mãe que escrevesse com a letra dela o que é que aqueles objetos eram em russo. As fotografias da minha mãe, eu ampliei-as para um tamanho que é superior à escala humana, para dar algum dramatismo”.

“Depois projetei a cor da bandeira espanhola da república, que é o vermelho, o amarelo e o roxo. Outra forma que me interessa tem a ver com o analógico: essas fotografias dos objetos da minha mãe, eu fiz em slide. Portanto, não é absolutamente nada digital; é um slide analógico e é projetado nestes projetores de slides, de carrossel, que vão passando os objetos.”

“Tenho dois pares de três grandes peças de tecido, uma que tem o mapa da Península Ibérica
e da Rússia
, para onde eles vão ser levados. O outro é uma coisa muito mais abstrata, mas que tem a cronologia dos acontecimentos. E depois não tem cronologia nenhuma. Está tudo em aberto. E ainda tinha outra peça em tecido, que é o mapa do regresso“.

Ana quis também incluir uma pomba usada pela mãe. “É uma pregadeira com uma pomba, que lhe tinha sido oferecida pelas colegas e pelos colegas russos, que ficaram quando ela se veio embora”.

Entre as várias referências está também a Guernica de Pablo Picasso que retrata o bombardeamento do município de Gernika-Lumo na província da Biscaia. Foi nesta cidade, apenas a 30 quilómetros de Bilbau, onde se encontra a família de Angelita e Ana, que foram lançadas as primeiras bombas sobre civis, durante a Guerra Civil. 

Pérez-Quiroga recupera o imaginário do quadro para o relacionar diretamente com Gernika-Lumo. “Era muito importante para mim, para o filme, para contar esta história, utilizar esta peça icónica de Picasso, que é a Guernica. Quis usar a Guernica dele para falar da Guernica real”, afirma.

As vindimas e a passagem do tempo

Um dos elementos centrais do documentário são as duas vindimas gravadas que simbolizam o tempo cíclico e a comunhão humana num paralelo com o entrelaçar do passado e o presente do filme.

“A minha família sempre viveu com essa forma de subsistência. As vindimas, o ciclo da natureza é repetido. E isso era, para mim, uma condição para compreender este filme. Porque eu estava a falar sobre um passado, um presente, um futuro. Isso é o tempo cronológico. Mas o que eu precisava era mesmo o tempo cíclico. E, por isso, esta história das vindimas.”

As vindimas representam simultaneamente trabalho coletivo, comunhão, ritual e continuidade que a realizadora quis dar expressão artística através da música e do simbolismo de atos como o colocar da toalha.

“Estas duas vindimas têm aqui um papel essencial que é a comunhão entre as pessoas. Aquela que se junta toda na terra. Por isso, eu também quis ritualizar aquelas duas vindimas. Colocar a toalha, a música que escolhi. Performatizar esse ato que é colocar uma toalha. A música que acompanha é esta sonata de Bach e ela cria, claro, na minha opinião, uma atmosfera em que se ritualizam os gestos.”

“A arte salva-nos”

Ana Pérez-Quiroga reflete sobre o papel da arte e da cultura na preservação da memória coletiva. Para a artista, a arte possui uma dimensão ética e de salvação.

“O papel da arte é salvação”, afirma. “Não tem nada a ver com a salvação do género de terapêutica. É uma salvação superior; é uma coisa que, em primeiro lugar, penso que tem um lado ético. A ética em relação ao ser humano, mas também ao planeta, para não estarmos a esmifra-lo. Eu não quero fazer objetos só para fazer objetos porque os recursos também são finitos. Portanto, quero ser eficaz no que faço”.

“A arte salva-nos nessa dimensão entre aquilo que nós podemos colocar no mundo, para que a outra pessoa possa receber, mas também possa receber com essa carga, com essa boa carga de energia. Em que há uma dádiva, mas a pessoa que recebe também recebe com dádiva. Eu acho que isso aqui é o papel da arte. Criar, trazer leveza, consciência e agradecimento”.

“A arte tem um lado generoso, mesmo quando é feita até por gente não generosa. A arte é sempre maior que a própria pessoa que a produz”.

Essa visão resume-se numa frase que apresentará numa futura exposição no Porto: “O limite da arte é o limite da vida.”

Uma ideia que atravessa também: DE QUÉ CASA ERES? – Uma história de resiliência, amor e identidade, que cruza passado e presente, história e memória.

O filme já está nos cinemas e será exibido numa exposição em Lisboa de Ana Pérez-Quiroga, na Appleton Square, a partir do dia 21 de maio.


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