45 mil sem médico de família no Seixal: Comissão de Utentes alerta para ‘privatização da saúde’
“Quando a saúde for privada, nós ficamos privados da saúde”
Cerca de 45 mil pessoas continuam sem médico de família no Seixal, segundo José Lourenço, presidente da Comissão de Utentes de Saúde do Seixal.
O número foi avançado durante a apresentação da 4.ª Corrida e Caminhada pela construção do Hospital no Seixal, onde o responsável alertou também para a crescente pressão do setor privado sobre o SNS.
Entre Almada e Seixal, são cerca de 60 mil os utentes sem médico de família, dos quais aproximadamente 45 mil pertencem ao Seixal e 15 mil a Almada.
Apesar dos números, José Lourenço considera que existem sinais positivos. Das 10 vagas para médicos abertas na Unidade Local de Saúde (ULS) Almada-Seixal, todas foram preenchidas.
“Das 10 vagas para médicos abertas na Unidade Local de Saúde (ULS) Almada-Seixal, todas foram preenchidas”, afirmou, acrescentando que a entrada destes profissionais deverá permitir que, “muito proximamente”, menos de 20 mil pessoas passem a ter acompanhamento por um médico ou equipa de saúde familiar, “porque há médicos a quererem vir trabalhar aqui para o concelho.”
O responsável alerta, contudo, que o crescimento populacional poderá fazer aumentar novamente o número de utentes sem médico de família em seis a sete mil nos próximos três a quatro anos. “Já temos de começar a pensar mais além, até na condição de novas unidades”, defendeu.
Novas unidades e pressão sobre o SNS
Paulo Silva, presidente da Câmara Municipal do Seixal, destacou o reforço dos cuidados de saúde primários com as novas unidades de Foros de Amora e Paio Pires.
“A unidade de Foros de Amora, que estará praticamente concluída, deverá servir cerca de 28 mil pessoas, enquanto a unidade de Paio Pires, atualmente em construção, deverá abranger aproximadamente 14 mil utentes.”
Para José Lourenço, estas respostas são importantes, mas não chegam para acompanhar o crescimento do concelho.
Comissão de Utentes alerta para privatização
José Lourenço criticou ainda a perda de atratividade do SNS e defendeu que existe um processo de privatização da saúde, associado às condições oferecidas aos profissionais.
“A sobrecarga dos profissionais, as dificuldades na progressão das carreiras e o congelamento de salários e outras remunerações” estão, segundo o responsável, a empurrar médicos e enfermeiros para o setor privado e para o estrangeiro.
“Estas questões são parte de um processo claro de privatização da saúde.”
A Comissão de Utentes alerta também para a dificuldade crescente em contratar enfermeiros para os hospitais. José Lourenço considera que os cuidados de saúde primários oferecem atualmente condições mais atrativas, nomeadamente através de incentivos.
“Nos hospitais, para ganharem esses 1000 ou 1200 euros, têm que fazer noites, fins de semana, serem subtraídos à família, terem todo aquele sacrifício e burnout que todos nós sabemos”, afirmou.
Na carreira médica, defende que os salários praticados no setor público levam muitos profissionais a depender de trabalho suplementar para aumentar os rendimentos, deixando os privados em vantagem na capacidade de recrutamento.
A intervenção terminou com um alerta sobre o futuro do sistema de saúde: “Quando a saúde for privada, nós ficamos privados da saúde.”
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