Opinião

25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais?

Vivemos tempos inquietantes. 50 anos depois do 25 de Abril de 1974 e da revolução popular que se lhe seguiu, quando se multiplicam as vozes revanchistas que, ao mesmo tempo, diminuem o alcance das conquistas de Abril e parecem querer ilibar o salazarismo de todas as suas malfeitorias, é muito importante, como diria Mário de Carvalho, “trocar algumas ideias sobre o assunto”. Não por fetiche ritualista, saudosismo revolucionário ou nostalgia depressiva de quem olha para o mundo à sua volta e não consegue vislumbrar saídas nem caminhos de futuro. Muito menos por imperativo penitencial ou pelo reconhecimento de que somos, a um tempo, vítimas e cúmplices do atual estado de coisas e daquilo que pode vir a ser o nosso futuro coletivo.

Discutir hoje este “Portugal de Abril que floriu em Maio”, recuperando a feliz expressão de António Avelãs Nunes, é importante, pelo menos, por dois motivos. Por um lado, porque se trata de uma revolução inacabada e qualquer dinâmica social transformadora, emancipatória e progressista tem de recuperar esse legado, atualizá-lo e projetá-lo no futuro como “utopia realizável”. Muito há ainda por fazer no que toca à democratização, à descolonização e ao desenvolvimento e admiti-lo hoje não traduz qualquer desvalorização do muito que se alcançou.

Se é certo que algumas das semelhanças existentes entre 48 anos de ditadura fascista e meio século de democracia não são pura coincidência, não podemos deixar de celebrar com júbilo o facto de, por meros instantes, tão reais quanto imaginários, a vontade de um povo “levantado do chão” se ter imposto à dos “mordomos do universo todo” à dos “senhores à força mandadores sem lei”. Não podemos deixar de festejar um tempo em que, como escreveu Maria Velho da Costa, «elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é (…) Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens».

Celebremos a Revolução, momento em que, nas palavras do historiador Enzo Traverso, «os seres humanos fazem a sua própria história (…) os oprimidos se tornam sujeitos históricos, derrubam a antiga ordem social e política e substituem-na por uma ordem nova (…) abrindo assim novos horizontes e projetando a sociedade num futuro desconhecido, que falta inventar». Dancemos, pois, sobre a campa do regime violento, explorador, oligárquico e corrupto até à medula, que, com a chancela dos sectores mais cavernícolas da Igreja católica, nos atormentou durante 48 longos e pesados anos e que, juntos, conseguimos defenestrar.

Mas será que o fizemos definitivamente e de uma vez por todas?

Se aceitarmos, como Mark Twain, que “a história nunca se repete, mas rima”, provavelmente não. Porque, e este é o segundo motivo pelo qual não devemos deixar de falar de Abril, se existe hoje um espectro que paira sobre a Europa é o do fascismo. Apesar da polémica historiográfica, das inúmeras variações semânticas, conceptuais e operativas que se têm vindo a construir em torno desta ideologia conservadora, autoritária e opressiva, se formos capazes de escapar a um certo espartilho bizantino do academismo mais ortodoxo, o mundo que vemos emergir à nossa volta parece “rimar” com aquele que se formou na primeira metade do século XX.

Num contexto de erosão da soberania dos povos e retrocesso democrático, de aprofundamento das desigualdades, empobrecimento económico, embrutecimento cultural e aceleração alucinante da vertigem belicista que nos arrasta a todos para a barbárie da guerra, a ofensiva da direita que se aparenta, cheira e sabe a fascismo, ganha um novo ímpeto. É neste terreno fértil para a manipulação e a “pós-verdade” que se disputa a batalha das ideias, desafio de grande envergadura numa sociedade como a portuguesa, onde crescem as frustrações sociais e a censura assume contornos cada vez mais sofisticados.

Este é o tempo do “Zé Ninguém”, daquele trabalhador, pequeno empresário, pensionista ou desempregado, cansado, revoltado e zangado, que sente um profundo e permanente mal-estar cuja origem não consegue identificar com clareza. Por isso, está disponível para qualquer solução providencial que surja e, plena de oportunismo, cavalgue o seu ressentimento. Afinal de contas, aquilo a que Umberto Eco chamou “nebulosa fascista” nunca nos abandonou verdadeiramente e características como o culto da tradição, do machismo e do heroísmo, a recusa da modernidade, o irracionalismo e a rejeição da crítica, o racismo, o apelo às classes médias frustradas, a obsessão conspirativa e a xenofobia, o desprezo pelos fracos, a necessidade de inimigos e a concepção da vida como guerra permanente, foram sempre aflorando, aqui e ali. Se existe uma diferença ela reside, apenas e só, no facto de hoje, como no passado que ensaia o seu retorno, se manifestarem de modo mais exuberante. Mas sempre cá estiveram, ocupando os interstícios de uma sociedade descontente.

O “desejo fascista”, como lhe chama Paulo Ávila, assenta numa omnipresente «paixão lasciva pela servidão, pela denúncia e pelo castigo» que, tendo sido enraizada nos corpos e mentes dos portugueses durante o salazarismo se prolonga até aos dias de hoje. Já Passos Coelho, sublinha ainda este autor, «encarnara a figura de um autêntico messias da castração, rentabilizando habilmente esse desejo pervertido de tomar as rédeas do próprio castigo, essa ânsia de ir além do capataz, de “apertar o cinto”, de ir “além da troika”; uma tendência que o governo “de esquerda” esteve longe de contrariar, sob o espectro do “bom aluno” Mário Centeno. Também não é por acaso que foi justamente do círculo de Passos Coelho que emanou a figura de André Ventura, o mesmo homem que usou cilício para auto-infligir danos corporais na sua passagem pelo seminário».

Defender e celebrar a memória histórica de Abril, suas conquistas e valores, e combater o fascismo – “que vem com botas cardadas ou com pezinhos de lã” – são dois desafios que temos de abraçar com espírito militante. Mais do que um ato fundador, o 25 de Abril é um processo que, através de todos aqueles que o valorizam, acarinham e empunham como ferramenta de construção de um futuro melhor para quem vive do seu trabalho, se mantém vivo. Viva o 25 de Abril!

André Carmo

Geógrafo e professor universitário

(Artigo elaborado a partir da intervenção de abertura do debate “25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais?”, realizado no dia 17 de abril de 2024, na Cooperativa Cultural Popular Barreirense)


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