Opinião

25 de Abril: Os cravos da liberdade e os espinhos da memória

Luís Guerreiro, vogal da Juventude Popular de Setúbal

O 25 de Abril de 1974 permanece como um dos momentos mais decisivos da história de Portugal, sendo que, nesse dia, caiu um regime autoritário que durante décadas limitou liberdades fundamentais e afastou o país da modernidade democrática europeia.

A Revolução dos Cravos abriu portas a direitos essenciais, como a liberdade de expressão, o pluralismo político e a realização de eleições livres, sendo esses valores consensuais e devem ser celebrados sem hesitação.

Contudo, uma análise séria e responsável da nossa história não pode limitar-se à celebração acrítica, a forma como o processo revolucionário evoluiu nos meses e anos seguintes levanta questões legítimas, sobretudo quando observada à luz de uma visão política que valoriza a estabilidade institucional, a economia de mercado e o respeito pela propriedade privada, uma revolução importante para o nosso país, mas onde nem tudo foi perfeito.

O período que se seguiu à revolução, marcado pelo chamado Processo Revolucionário em Curso (PREC), foi caracterizado por uma forte radicalização política, assistiu-se à nacionalização de setores estratégicos da economia, à ocupação de terras e empresas e a um ambiente de confronto ideológico que colocou em risco a própria consolidação de uma democracia pluralista, ou seja, em vez de uma transição gradual e equilibrada, Portugal viveu momentos de grande incerteza, em que modelos de inspiração coletivista chegaram a ameaçar a liberdade económica e a iniciativa privada.

Para quem defende uma sociedade assente numa economia social de mercado, estes episódios não podem ser ignorados nem romantizados como muita gente atualmente tenta fazer, a liberdade política, para ser plena, deve ser acompanhada de liberdade económica sim, e sem esta, o progresso torna-se frágil e dependente, o país perde capacidade de gerar riqueza e oportunidades para os seus cidadãos.

Outro aspeto incontornável é o processo de descolonização, ou seja, embora a independência das colónias fosse inevitável no contexto internacional da época, a forma como foi conduzida revelou-se precipitada e desorganizada.

Milhares de portugueses regressaram a um país impreparado para os acolher, enquanto os novos Estados africanos enfrentaram processos de transição marcados por conflitos e instabilidade, uma abordagem mais estruturada e responsável poderia ter reduzido o sofrimento humano e promovido soluções mais sustentáveis, menos difíceis para quem voltou a Portugal depois de anos lá fora e mais fáceis para o povo africano que depois desta revolução deparou-se com uma realidade de animosidade entre estados, tudo o que não precisavam na altura.

Importa também reconhecer que a consolidação da democracia portuguesa não foi obra exclusiva do impulso revolucionário, mas sim do equilíbrio alcançado posteriormente.

Foi a partir do momento em que prevaleceram o diálogo, a moderação e o respeito pelas instituições que Portugal conseguiu estabilizar-se e afirmar-se como uma democracia europeia, sendo que, neste percurso, o contributo de forças políticas moderadas e reformistas foi determinante para travar excessos e construir consensos duradouros, construir os valores certos e moderados e não valores instáveis, impulsivos, valores feitos à pressão.

Hoje, ao assinalarmos o 25 de Abril, devemos fazê-lo com orgulho, mas também com sentido crítico. Celebrar a liberdade não implica ignorar os erros do passado, muito pelo contrário, implica aprender com eles. A história ensina-nos que a democracia não se constrói apenas com ruturas, mas com responsabilidade, prudência e compromisso.

Assim, a melhor forma de honrar o espírito de Abril é garantir que Portugal continua a ser um país onde a liberdade anda de mãos dadas com a estabilidade, onde os direitos são protegidos, mas também onde existe respeito pelas instituições e pela iniciativa individual.

Um país que não esquece o seu passado, mas que também não deixa de refletir sobre ele porque a liberdade conquistada em 1974 só se torna verdadeiramente duradoura quando é acompanhada de responsabilidade e equilíbrio, quando é vista sem tomar partidos, quando é observada a nu, quando se tem a capacidade de celebrar este dia mas sempre com a ideia que nem tudo foi perfeito, que houveram erros sim, erros que não se podem voltar a repetir.


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